Imperialismo
| Política |
|---|
| Portal • Categoria |
| Parte de uma série sobre |
| Colonialismo |
|---|
| Colonização |
| Descolonização |
Imperialismo é um termo empregado para designar relações e práticas de expansão e dominação política, econômica, militar ou cultural de um Estado ou de uma potência sobre outros territórios, povos ou sociedades. O conceito, contudo, não possui uma definição única: na historiografia e nas ciências sociais, imperialismo pode referir-se tanto a políticas de expansão territorial e formação de impérios quanto a formas de controle indireto, dependência econômica e projeção de poder que não pressupõem a anexação formal de territórios.[1][2]
A palavra possui uma história mais antiga que o conceito contemporâneo. Derivada de imperium, termo latino associado ao poder de comando e à autoridade, passou a adquirir novos sentidos políticos ao longo da formação dos Estados modernos e, sobretudo, durante as disputas políticas do século XIX. No final desse século, imperialismo tornou-se uma expressão corrente no debate sobre a expansão ultramarina das potências europeias, especialmente em relação à chamada Partilha de África e à expansão colonial na Ásia.[1]
Na passagem do século XIX para o XX, o termo passou a ser utilizado também como categoria de análise das transformações econômicas e políticas associadas à expansão das grandes potências. Em 1902, John A. Hobson publicou Imperialism: A Study, obra que relacionava a expansão imperial britânica a desequilíbrios da economia capitalista, à concentração de renda e aos interesses de grupos financeiros.[2]
A partir dessa discussão, o imperialismo tornou-se objeto de diferentes interpretações teóricas. Autores marxistas, entre eles Vladimir Lenin, Rosa Luxemburgo e Nikolai Bukharin, relacionaram a expansão imperial às transformações do capitalismo, embora apresentassem explicações distintas. Lenin, em O imperialismo, fase superior do capitalismo, publicado em 1916, caracterizou o imperialismo pela concentração da produção e do capital, pelo predomínio dos monopólios, pela fusão do capital bancário e industrial, pela exportação de capitais e pela disputa pela divisão econômica e territorial do mundo.[3]
Outras interpretações questionaram a existência de uma relação necessária entre capitalismo e imperialismo. Joseph Schumpeter, por exemplo, interpretou o imperialismo como resultado de disposições políticas e sociais herdadas de estruturas pré-capitalistas, sustentando que o capitalismo, em sua forma moderna, tenderia antes ao comércio e à competição econômica do que à conquista territorial.[4]
A historiografia posterior ampliou ainda mais o conceito. Estudos sobre o Império Britânico demonstraram a importância das formas de dominação informal, enquanto abordagens econômicas, sociais, culturais e globais passaram a examinar as relações entre imperialismo, capitalismo, nacionalismo, raça, conhecimento, guerra e formação de hierarquias internacionais.[5][6][7]
No século XX, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970, as teorias da dependência e dos sistemas-mundo deslocaram parte da análise para as relações estruturais entre centro e periferia da economia mundial. Autores como Andre Gunder Frank, Fernando Henrique Cardoso, Enzo Faletto, Samir Amin e Immanuel Wallerstein procuraram compreender como a expansão do capitalismo mundial produziu formas historicamente diferenciadas de desenvolvimento, dependência e desigualdade entre regiões.[8][9][10][11]
Assim, o imperialismo não constitui um fenômeno explicado por uma única teoria ou reduzido à conquista colonial. O conceito pode ser empregado para analisar diferentes formas históricas de expansão e dominação, cuja natureza e cujos mecanismos variaram conforme as estruturas políticas, econômicas e sociais de cada período. Este artigo apresenta a formação histórica do conceito, as principais interpretações teóricas do imperialismo e suas manifestações históricas, com especial atenção à expansão imperial das potências europeias nos séculos XIX e XX.
Etimologia e história do termo
[editar | editar código]O termo no século XIX
[editar | editar código]O termo imperialismo deriva de imperial, por sua vez relacionado ao latim imperium, que designava autoridade, poder de comando e domínio. A palavra moderna, entretanto, não possui a mesma antiguidade do fenômeno histórico que posteriormente passou a designar. Seu significado político foi construído e transformado ao longo do século XIX, acompanhando as disputas em torno da natureza do poder imperial e da expansão dos impérios europeus.[1]
Os primeiros usos modernos documentados do termo ocorreram no contexto político francês associado ao bonapartismo. Na década de 1830, impérialisme passou a ser empregado para designar a defesa ou o espírito favorável ao regime napoleônico. Durante o Segundo Império Francês, instaurado por Napoleão III em 1852, o termo adquiriu sobretudo um sentido político e frequentemente pejorativo, associado ao governo autoritário, ao culto do imperador, ao militarismo e às pretensões de poder do regime.[1]
Esse significado inicial era distinto daquele que posteriormente se tornaria predominante. O imperialismo ainda não designava necessariamente a expansão colonial de uma potência sobre territórios ultramarinos. O termo podia referir-se, antes, a uma forma de organização e exercício do poder político, especialmente à experiência francesa do Segundo Império. A associação entre imperialismo e expansão territorial foi construída progressivamente durante a segunda metade do século XIX.[1]
No Reino Unido, o emprego político do termo ganhou importância a partir das décadas de 1860 e 1870. Inicialmente, imperialism conservava parte de suas conotações negativas associadas ao regime de Napoleão III. Progressivamente, porém, passou a ser utilizado no debate britânico sobre a natureza e o futuro do Império Britânico, especialmente nas controvérsias envolvendo a política de Benjamin Disraeli e a relação entre a metrópole, as colônias e os domínios britânicos.[1]
O significado do termo tornou-se objeto de disputa política. Liberais britânicos utilizaram imperialism de maneira pejorativa para criticar aquilo que consideravam uma política externa agressiva, militarista e excessivamente comprometida com a expansão e o fortalecimento do Império. Ao mesmo tempo, setores favoráveis à consolidação do Império Britânico passaram gradualmente a empregar o termo de maneira positiva, associando-o à unidade imperial, ao fortalecimento dos vínculos entre o Reino Unido e seus territórios ultramarinos e à projeção internacional britânica.[1]
A transformação semântica esteve relacionada às mudanças da própria política imperial britânica. Durante a década de 1870, as discussões sobre a unidade do Império, a expansão colonial e a posição internacional do Reino Unido contribuíram para consolidar imperialism como uma categoria do vocabulário político britânico. O discurso de Disraeli no Palácio de Cristal, em 1872, tornou-se posteriormente um dos episódios associados à afirmação de uma política de fortalecimento dos vínculos imperiais.[1]
Na década de 1880, o termo já era empregado de maneira mais ampla para caracterizar políticas de expansão e fortalecimento dos impérios europeus. A aceleração da expansão colonial europeia na África e na Ásia favoreceu a associação entre imperialismo, conquista territorial, competição entre potências e estabelecimento de novas formas de dominação colonial. O significado político do termo passou, assim, a aproximar-se progressivamente daquele que se tornaria predominante no debate sobre a expansão imperial do final do século XIX.[1]
Essa transformação não ocorreu de maneira instantânea nem produziu um significado único. Imperialismo continuou a ser utilizado tanto por seus defensores quanto por seus críticos, com sentidos distintos. No final do século XIX, o termo podia designar uma política de fortalecimento do Império Britânico, uma ideologia de expansão territorial ou, de forma crítica, as práticas de dominação e conquista associadas às potências europeias.[1]
A consolidação do sentido moderno do termo coincidiu com a expansão imperial europeia entre as últimas décadas do século XIX e o início do século XX. A associação entre imperialismo e colonialismo tornou-se particularmente forte durante a chamada Partilha de África, a expansão europeia na Ásia e a crescente competição entre as grandes potências. Foi nesse contexto que o termo deixou de ser predominantemente uma categoria do debate político sobre formas de governo e passou também a funcionar como uma categoria de análise das relações internacionais, da economia e da expansão colonial.[1]
Da política imperial à teoria do imperialismo
[editar | editar código]No início do século XX, imperialismo já havia adquirido um significado suficientemente amplo para ser objeto de análise sistemática. Em 1902, John A. Hobson publicou Imperialism: A Study, uma das primeiras obras a transformar o termo em categoria analítica para explicar a expansão britânica. A partir de então, o conceito passou a ocupar lugar central nos debates sobre as causas econômicas, políticas e sociais da expansão imperial, sendo posteriormente reinterpretado por diferentes correntes do pensamento político e econômico.[2]
A publicação de Imperialism: A Study marcou uma transformação importante no uso intelectual do conceito. O imperialismo deixou de ser apenas uma expressão empregada para caracterizar ou defender determinadas políticas de expansão e passou a constituir objeto de teorias destinadas a explicar as causas e os mecanismos da expansão das grandes potências.[12]
A partir desse momento, diferentes tradições intelectuais passaram a atribuir ao imperialismo causas distintas. As interpretações econômicas enfatizaram a relação entre expansão imperial, mercados, investimentos e acumulação de capital; interpretações políticas destacaram a competição entre Estados e os interesses estratégicos das potências; e outras abordagens procuraram explicar o fenômeno por fatores sociais, culturais, militares e ideológicos.[13]
A interpretação de Hobson exerceu influência particularmente importante sobre o desenvolvimento posterior das teorias do imperialismo. Embora não fosse marxista, sua análise foi uma das referências utilizadas por Vladimir Lenin na formulação de sua própria interpretação do fenômeno.[14][15]
A história do termo é, portanto, distinta da história dos impérios. Práticas de conquista, dominação e formação de impérios existiam muito antes da criação do vocabulário moderno do imperialismo. O que se transformou durante o século XIX foi a maneira de nomear, interpretar e disputar politicamente essas práticas. A passagem de uma referência ao regime napoleônico para uma categoria associada à expansão colonial e, posteriormente, a uma categoria analítica das relações de poder constitui parte da própria história intelectual do imperialismo.[1]
Conceito e terminologia
[editar | editar código]O termo imperialismo possui significado mais amplo e mais controverso do que o de colonialismo. Enquanto império designa uma forma de organização política caracterizada pelo exercício de autoridade sobre diferentes povos ou territórios, imperialismo é empregado sobretudo para descrever políticas, práticas e relações destinadas a estabelecer ou preservar relações de poder assimétricas entre diferentes sociedades. O colonialismo constitui uma das formas históricas pelas quais relações imperiais podem ser organizadas, mas não esgota o fenômeno do imperialismo.[13][16]
Império, imperialismo e colonialismo
[editar | editar código]A distinção entre império e imperialismo é necessária porque a existência de um império não implica necessariamente a adoção de uma política imperialista no sentido moderno do termo. Impérios existiram em diferentes períodos históricos e assumiram formas políticas variadas, incluindo estruturas baseadas em conquista territorial, tributação, vassalagem, administração direta e diferentes modalidades de autonomia local. O conceito de imperialismo, por sua vez, tornou-se especialmente associado, na historiografia contemporânea, às políticas de expansão e dominação desenvolvidas pelas grandes potências a partir do século XIX.[13]
O colonialismo refere-se especificamente a relações de dominação nas quais uma potência estabelece e mantém autoridade sobre um território e sua população, frequentemente acompanhada pela instalação de instituições políticas, administrativas e econômicas vinculadas à potência dominante. O colonialismo pode constituir uma expressão do imperialismo, mas as relações imperialistas também podem existir sem o estabelecimento de uma administração colonial formal.[16]
Imperialismo formal e informal
[editar | editar código]O imperialismo formal corresponde, nesse sentido, às situações nas quais uma potência estabelece uma relação de soberania ou administração direta sobre outro território. O imperialismo informal corresponde a situações nas quais a potência dominante preserva formalmente a soberania de outro Estado, mas consegue exercer influência significativa sobre suas decisões políticas ou econômicas. A fronteira entre essas modalidades, contudo, nem sempre é rígida, e diferentes sociedades puderam experimentar combinações de controle direto e indireto.[16]
A distinção entre imperialismo formal e informal não deve ser entendida como uma oposição absoluta entre territórios colonizados e territórios independentes. Relações de dependência podiam coexistir com diferentes graus de soberania formal, enquanto territórios submetidos à administração colonial também preservavam instituições e agentes locais com diferentes graus de autonomia. O estudo do imperialismo requer, portanto, a análise das relações concretas de poder existentes em cada contexto histórico.[16]
Essa perspectiva permite compreender o imperialismo como um fenômeno que não se limita à anexação de territórios. Comércio, crédito, investimentos, tratados, alianças militares, influência diplomática e controle de posições estratégicas podiam constituir instrumentos de expansão da influência de uma potência. A importância relativa de cada mecanismo variou de acordo com as condições políticas e econômicas das sociedades envolvidas.[16][13]
Imperialismo como conceito histórico
[editar | editar código]A utilização contemporânea do termo imperialismo está fortemente associada à expansão das grandes potências durante a segunda metade do século XIX. Nesse contexto, o conceito passou a ser empregado tanto por defensores quanto por críticos da expansão imperial. A palavra podia designar uma política considerada necessária para o fortalecimento nacional e, simultaneamente, uma forma de dominação e exploração condenada por seus opositores.[17][18]
Essa dimensão histórica é importante porque imperialismo não constitui apenas uma categoria descritiva utilizada posteriormente pelos historiadores. O termo também pertence ao vocabulário político da época em que as grandes potências ampliaram seus domínios na África, na Ásia e em outras regiões. Seu significado esteve, portanto, sujeito a disputas políticas e ideológicas.[17]
Consequentemente, não existe uma definição única de imperialismo aceita por todas as correntes historiográficas. O termo pode enfatizar a expansão territorial, a dominação política, a dependência econômica, a competição entre Estados, as relações de classe ou as dimensões culturais e ideológicas da dominação. O significado atribuído ao conceito depende, em grande medida, do período histórico e da perspectiva teórica empregados em sua análise.
Teorias do imperialismo
[editar | editar código]Hobson e a crítica econômica
[editar | editar código]Em 1902, o economista e jornalista britânico John Atkinson Hobson publicou Imperialism: A Study, uma das primeiras tentativas sistemáticas de explicar as causas do novo imperialismo europeu. A obra foi escrita no contexto da Segunda Guerra dos Bôeres e tinha como principal objeto a expansão imperial britânica ocorrida nas décadas finais do século XIX. Hobson não procurava explicar todas as formas históricas de império, mas interpretar a expansão contemporânea das potências industriais, especialmente a britânica.[19]
Hobson rejeitava a ideia de que a expansão colonial pudesse ser explicada simplesmente pela necessidade de conquistar novos mercados para a produção industrial britânica. Embora reconhecesse a importância do comércio exterior, argumentava que o comércio com as colônias representava apenas uma parcela da economia britânica e que alguns dos mercados externos mais importantes do Reino Unido estavam situados em países industrializados independentes, e não nas colônias.[20]
A explicação econômica de Hobson estava centrada no que chamou de raiz econômica do imperialismo. Segundo sua análise, a distribuição desigual da renda dentro das sociedades capitalistas fazia com que as classes proprietárias acumulassem rendimentos superiores à sua capacidade de consumo. O resultado seria uma tendência à formação de poupança e de capital excedentes em relação às oportunidades de investimento lucrativo disponíveis no mercado interno.[21]
Para Hobson, portanto, o problema não era simplesmente a existência de excesso de capacidade produtiva, mas a forma como a renda era distribuída. Rendas, lucros monopolistas e outras formas de rendimento não diretamente vinculadas ao trabalho poderiam produzir uma concentração de poder de compra nas mãos de grupos que não tinham condições de converter todo esse rendimento em consumo. O capital excedente buscaria então novas oportunidades de investimento no exterior.[21]
A expansão imperial aparecia, nesse modelo, como uma forma de utilizar politicamente o Estado para proteger interesses econômicos privados. Investidores, financistas, comerciantes e outros grupos interessados em oportunidades externas poderiam pressionar o governo para obter condições políticas, militares e jurídicas favoráveis à expansão. O imperialismo seria, assim, resultado da convergência entre interesses econômicos particulares e o exercício do poder estatal.[22]
Hobson dedicou especial atenção ao papel das finanças. Para ele, a política imperial não deveria ser confundida com o interesse econômico geral da população britânica. A expansão poderia beneficiar grupos específicos, enquanto seus custos recaíam sobre o conjunto da sociedade por meio de despesas militares, administrativas e fiscais. A política externa imperial poderia, desse modo, transformar recursos públicos em instrumentos de proteção de interesses privados.[22]
Essa interpretação também levou Hobson a rejeitar a ideia de que o imperialismo fosse uma necessidade econômica inevitável. Se a causa fundamental da formação de capital excedente estivesse na distribuição desigual da renda, seria possível enfrentar o problema por meio de reformas sociais e econômicas. Uma distribuição mais ampla da renda aumentaria o consumo interno e reduziria a necessidade de buscar no exterior mercados e oportunidades de investimento.[21]
A crítica de Hobson era, portanto, dirigida ao imperialismo sem implicar uma rejeição do capitalismo como sistema. Sua proposta era reformista: procurava corrigir as condições sociais e econômicas que, em sua interpretação, estimulavam a expansão imperial. Essa característica distingue sua teoria das formulações marxistas posteriores que passaram a interpretar o imperialismo como uma consequência estrutural do desenvolvimento capitalista.[23]
A análise de Hobson combinava, desse modo, uma explicação econômica com uma crítica política e moral do imperialismo. A expansão territorial não era apresentada como expressão necessária do interesse nacional britânico, mas como resultado da influência de grupos econômicos particulares sobre o Estado. A distinção entre o interesse público e os interesses dos grupos beneficiados pela expansão constitui um dos elementos centrais de sua interpretação.[24]
A influência posterior de Hobson foi significativa, especialmente sobre o debate marxista acerca do imperialismo. Vladimir Lenin considerou Imperialism: A Study uma fonte importante e utilizou dados e argumentos de Hobson em sua própria análise. Entretanto, a relação entre os dois autores não deve ser reduzida a uma simples continuidade: Hobson considerava o imperialismo uma deformação reformável do capitalismo, enquanto Lenin procuraria explicá-lo como resultado das transformações estruturais do capitalismo monopolista.[25][23]
A chamada interpretação econômica do imperialismo recebeu posteriormente críticas de historiadores que questionaram tanto a relação causal entre exportação de capital e expansão territorial quanto a ideia de que os investimentos coloniais fossem necessariamente mais lucrativos ou decisivos do que outros investimentos internacionais. A obra de Hobson permanece, contudo, como um marco na transformação do imperialismo de objeto de controvérsia política em objeto de investigação sistemática sobre as relações entre economia, Estado e expansão internacional.[23]
Lenin e o imperialismo como fase do capitalismo
[editar | editar código]A interpretação de Vladimir Ilitch Lenin constituiu uma das formulações mais influentes sobre o imperialismo no pensamento marxista. Sua principal obra sobre o tema, Imperialismo, fase superior do capitalismo, foi escrita em Zurique entre janeiro e junho de 1916 e publicada em forma de brochura em Petrogrado em 1917. Lenin a apresentou como uma análise econômica do capitalismo de seu tempo, procurando relacionar as transformações ocorridas nas principais economias capitalistas desde o final do século XIX com a expansão imperial e a Primeira Guerra Mundial.[26]
Lenin partiu da transformação da livre concorrência em monopólio. Para ele, a concentração da produção e do capital havia alcançado um grau em que cartéis, sindicatos e trustes passaram a desempenhar papel decisivo em setores importantes das economias capitalistas. O monopólio não eliminaria a concorrência, mas passaria a coexistir com ela e a subordiná-la a novas formas de organização do grande capital.[27]
A segunda característica identificada por Lenin era a transformação do papel dos bancos. Estes teriam deixado de atuar predominantemente como intermediários financeiros para adquirir capacidade crescente de controle sobre a economia, em associação com grandes empresas industriais. Da fusão entre o capital bancário e o capital industrial resultaria o que Lenin, seguindo e desenvolvendo uma categoria empregada por Rudolf Hilferding, denominou capital financeiro.[28]
Associada ao capital financeiro estaria a formação de uma oligarquia financeira. Grandes bancos e empresas industriais estabeleceriam relações estreitas de propriedade, direção e controle, concentrando em um número relativamente reduzido de grupos uma parcela significativa do poder econômico. Para Lenin, essa concentração econômica também possuía consequências políticas, uma vez que o grande capital ampliaria sua capacidade de influenciar as instituições do Estado.[29]
A terceira característica era a crescente importância da exportação de capitais. Lenin distinguia essa exportação da simples circulação internacional de mercadorias. À medida que a concentração de capital avançava nos países capitalistas mais desenvolvidos, a existência de grandes volumes de capital disponíveis para investimento e diferenças nas taxas de lucro criariam incentivos para sua aplicação em outros países. A exportação de capitais passaria, assim, a constituir um dos mecanismos centrais da economia imperialista.[30]
A quarta característica seria a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas. Empresas e grupos monopolistas de diferentes países poderiam estabelecer acordos para dividir mercados, fontes de matérias-primas e áreas de investimento. Essa internacionalização do capital não eliminaria a competição entre as grandes potências; ao contrário, coexistiria com a disputa entre os Estados pelos espaços econômicos e políticos disponíveis.[31]
A quinta característica era a conclusão da partilha territorial do mundo entre as grandes potências capitalistas. Lenin observava que, ao final do século XIX, a maior parte dos territórios ainda não submetidos formalmente ao domínio de alguma potência europeia havia sido incorporada aos impérios coloniais. A partir desse momento, a expansão imperial assumiria cada vez mais a forma de disputa pela redistribuição de territórios e áreas de influência já ocupados por outras potências.[32]
Esses cinco elementos (concentração e monopólio, capital financeiro e oligarquia financeira, exportação de capitais, associações monopolistas internacionais e partilha territorial do mundo) constituem a definição econômica que Lenin apresentou para o imperialismo. Em sua formulação, o imperialismo seria uma fase particular do desenvolvimento do capitalismo, caracterizada pelo predomínio dos monopólios e do capital financeiro e pela importância adquirida pela exportação de capitais e pela divisão econômica e territorial do mundo.[33]
A interpretação de Lenin estava relacionada à sua análise da Primeira Guerra Mundial. A competição econômica entre as grandes potências, a disputa por mercados, fontes de matérias-primas, áreas de investimento e territórios coloniais seriam manifestações de contradições produzidas pelo desenvolvimento desigual do capitalismo. A guerra, nessa perspectiva, não poderia ser explicada apenas por rivalidades diplomáticas ou nacionais, mas deveria ser relacionada à disputa entre potências imperialistas pela repartição do mundo.[34]
Lenin também associou o imperialismo ao desenvolvimento desigual entre os países capitalistas. Como as diferentes potências não se desenvolveriam no mesmo ritmo, posições relativas de poder econômico e territorial poderiam mudar. A potência que alcançasse posteriormente uma posição econômica mais forte encontraria o mundo colonial já amplamente repartido, criando uma tensão entre a distribuição existente dos territórios e a distribuição cambiante das forças econômicas. A disputa pela chamada redivisão do mundo seria, nesse sentido, uma característica estrutural da época imperialista.[32]
A teoria leninista não identificava, portanto, imperialismo simplesmente com colonialismo. O domínio colonial constituía uma de suas manifestações, mas a análise abrangia também relações financeiras, exportação de capitais, monopólios, associações empresariais internacionais e áreas de influência. Essa amplitude permitia a Lenin incluir em sua análise países formalmente independentes, mas submetidos a diferentes graus de dependência econômica ou financeira.[35]
Lenin considerava ainda que o imperialismo apresentava características de parasitismo e decadência do capitalismo. A crescente importância do capital financeiro e dos rendimentos obtidos no exterior favoreceria, em sua interpretação, a formação de uma camada de rentistas e de Estados credores. A exportação de capitais e a posição de determinados países como credores internacionais seriam acompanhadas por transformações sociais e políticas que Lenin associava ao caráter parasitário do capitalismo imperialista.[36]
A formulação leninista foi também uma resposta a outras interpretações marxistas do imperialismo. Lenin polemizou particularmente com Karl Kautsky, que distinguia o imperialismo enquanto política dos Estados da estrutura econômica do capitalismo e chegou a admitir a possibilidade de uma fase de cooperação entre as grandes potências, posteriormente denominada por ele ultraimperialismo. Lenin rejeitou essa perspectiva, argumentando que a concorrência e as contradições entre os grandes capitais e os Estados não poderiam ser superadas de maneira estável enquanto permanecessem as bases do capitalismo.[34]
A teoria de Lenin exerceu grande influência sobre o pensamento marxista posterior e sobre interpretações do imperialismo no século XX. Sua concepção também se tornou objeto de amplo debate historiográfico e econômico, especialmente quanto à relação entre monopólio, exportação de capitais, colonialismo e guerra. Embora sua formulação não constitua uma definição consensual do imperialismo nas ciências sociais contemporâneas, os cinco elementos apresentados em 1916 permanecem como uma referência central na história do conceito e das teorias marxistas sobre o imperialismo.
Schumpeter e a interpretação sociológica
[editar | editar código]Joseph Schumpeter apresentou uma interpretação do imperialismo substancialmente diferente das explicações econômicas desenvolvidas por Hobson e Lenin. Em Imperialism and Social Classes, ensaio originalmente publicado em 1919, Schumpeter procurou explicar o imperialismo a partir da persistência de estruturas sociais, políticas e psicológicas formadas em sociedades pré-capitalistas. Para ele, a expansão imperial não constituía uma consequência necessária da lógica econômica do capitalismo moderno.[37]
Schumpeter estabeleceu uma distinção entre o capitalismo moderno e formas anteriores de organização política. O capitalismo, caracterizado pela racionalização econômica, pelo cálculo e pela busca de lucro, tenderia a favorecer relações econômicas pacíficas entre diferentes sociedades. O comércio internacional e a competição econômica poderiam substituir formas anteriores de conquista e apropriação territorial.[38]
O imperialismo, nessa interpretação, deveria ser entendido como a persistência de tendências políticas e sociais que antecediam o capitalismo. Schumpeter identificou essas tendências sobretudo em estruturas aristocráticas e militares, nas quais a guerra, a conquista territorial e a expansão do poder político possuíam valor próprio, independentemente de uma necessidade econômica imediata.[39]
A guerra teria, assim, uma dinâmica parcialmente autônoma em relação aos interesses econômicos. Grupos sociais formados em torno da aristocracia, do militarismo e da burocracia estatal poderiam favorecer políticas expansionistas porque a conquista e a manutenção de estruturas imperiais correspondiam aos seus interesses políticos, sociais e simbólicos. O imperialismo seria, nesse sentido, resultado da interação entre essas forças sociais e as instituições políticas.[40]
Schumpeter utilizou como exemplo histórico o Império Romano, que interpretava como uma forma de expansão imperial não explicável simplesmente pela procura racional de vantagens econômicas. A conquista poderia adquirir uma dinâmica própria: uma vitória militar criava novas fronteiras, cuja defesa exigia novas conquistas, produzindo um processo cumulativo de expansão. O imperialismo poderia, assim, sobreviver mesmo quando seus custos econômicos superassem seus benefícios imediatos.[41]
Essa concepção levou Schumpeter a formular uma explicação do imperialismo baseada no que chamou de tendências atavísticas. O termo não significava simplesmente uma sobrevivência cultural sem importância, mas a permanência de interesses, hábitos e estruturas políticas provenientes de sociedades anteriores ao capitalismo. Em determinadas circunstâncias, essas forças poderiam utilizar os recursos econômicos e institucionais do capitalismo para promover objetivos que não eram determinados pela lógica capitalista de obtenção de lucro.[42]
Para Schumpeter, portanto, não existiria uma relação necessária entre capitalismo e imperialismo. O capitalismo moderno seria, em princípio, incompatível com a lógica permanente da conquista, porque dependeria de cálculo econômico, segurança jurídica e relações comerciais relativamente estáveis. A expansão imperial ocorreria quando estruturas políticas e sociais não plenamente transformadas pelo capitalismo conseguissem mobilizar o poder econômico e militar dos Estados em favor de objetivos expansionistas.[43]
Essa interpretação também implicava uma distinção entre capitalismo e nacionalismo. A formação de Estados nacionais e a competição política entre eles poderiam estimular sentimentos de prestígio, honra e poder que não derivavam diretamente da racionalidade econômica capitalista. O imperialismo seria favorecido quando essas forças políticas se combinassem com instituições militares e burocráticas capazes de sustentar uma política de expansão.[44]
A explicação de Schumpeter era, portanto, simultaneamente econômica e sociológica. Ela não negava a existência de interesses econômicos nas políticas imperiais, mas questionava que esses interesses constituíssem a causa fundamental do imperialismo. A questão central passava a ser por que determinados grupos e instituições políticas conseguiam transformar recursos econômicos em políticas de conquista e expansão territorial.[45]
Essa perspectiva produziu uma crítica direta às interpretações que estabeleciam uma relação necessária entre desenvolvimento capitalista e imperialismo. Enquanto Lenin considerava o imperialismo uma fase histórica do capitalismo caracterizada pela concentração monopolista, pelo capital financeiro e pela exportação de capitais, Schumpeter sustentava que o capitalismo tenderia, em si mesmo, a reduzir a importância econômica da conquista territorial.[33][43]
A diferença entre as duas interpretações não se limitava, portanto, à identificação de causas distintas. Elas partiam de concepções diferentes sobre a própria relação entre economia, Estado e política internacional. Na interpretação leninista, as transformações econômicas do capitalismo produziam contradições que se manifestavam na competição entre as grandes potências. Para Schumpeter, ao contrário, instituições e grupos políticos de origem pré-capitalista poderiam utilizar o Estado para perseguir objetivos expansionistas que não eram exigidos pelo funcionamento do capitalismo.[33][46]
A interpretação de Schumpeter exerceu influência sobre abordagens posteriores que procuraram explicar o imperialismo sem reduzi-lo às relações econômicas. Sua contribuição foi particularmente importante para a consideração dos fatores sociais, políticos, militares e institucionais envolvidos na formação das políticas imperiais. Ao deslocar a questão da economia para a relação entre estruturas sociais, instituições políticas e expansão territorial, Schumpeter contribuiu para ampliar o campo das explicações sobre o imperialismo.
Imperialismo informal
[editar | editar código]A interpretação do imperialismo foi modificada, a partir da década de 1950, por estudos que questionaram a identificação entre expansão imperial e aquisição formal de territórios. Um dos trabalhos mais influentes nesse sentido foi o artigo The Imperialism of Free Trade, publicado por John Gallagher e Ronald Robinson em 1953. Os autores argumentaram que a expansão britânica no século XIX não poderia ser compreendida apenas pela extensão do domínio colonial formal, pois a influência britânica também se exercia por meio de comércio, investimentos, diplomacia e pressão política sobre sociedades que permaneciam formalmente independentes.[16]
Gallagher e Robinson denominaram essa modalidade de expansão de império informal. A distinção fundamental era entre o domínio político formal, baseado na soberania territorial e na administração colonial, e formas de influência capazes de produzir resultados favoráveis aos interesses britânicos sem a incorporação direta dos territórios ao Império. A expansão britânica deveria, portanto, ser analisada como um processo que combinava diferentes graus e instrumentos de controle.[47]
A interpretação também modificava a compreensão da relação entre livre-comércio e imperialismo. Em vez de considerar o livre-comércio e a expansão imperial como políticas necessariamente opostas, Gallagher e Robinson argumentaram que a política britânica poderia utilizar o poder do Estado para criar condições favoráveis à expansão comercial e, quando possível, preservar a influência britânica por meios indiretos. A soberania formal seria adotada quando os mecanismos informais de influência não fossem suficientes ou quando outras circunstâncias políticas tornassem necessária a intervenção direta.[48]
O conceito permitia, assim, distinguir entre diferentes mecanismos de expansão. Em algumas situações, a influência britânica dependia principalmente da superioridade comercial e financeira e da disposição das elites locais em estabelecer relações estreitas com o Reino Unido. Em outras, a pressão diplomática ou militar poderia ser empregada para abrir mercados ou assegurar condições favoráveis aos interesses britânicos. A fronteira entre influência informal e domínio formal não era, portanto, absoluta.[48]
A formulação de Gallagher e Robinson também procurava superar uma interpretação segundo a qual o imperialismo britânico do século XIX teria passado simplesmente de uma fase de relativa retração imperial, associada ao livre-comércio, para uma fase de expansão colonial intensificada no final do século. Para os autores, existiria uma continuidade mais ampla da expansão britânica, embora os instrumentos empregados e os graus de controle variassem conforme as circunstâncias.[47]
A categoria de imperialismo informal foi posteriormente utilizada em estudos sobre regiões da América Latina, do Oriente Médio, da China e de outras áreas que mantiveram independência formal enquanto estabeleciam relações econômicas e políticas assimétricas com as grandes potências. O conceito tornou-se especialmente importante para a historiografia do Império Britânico, ao deslocar a atenção das fronteiras coloniais para redes mais amplas de comércio, investimento, diplomacia e poder.[49]
O conceito, contudo, não ficou isento de críticas. Historiadores questionaram se toda influência econômica britânica sobre sociedades independentes deveria ser classificada como uma forma de império. Em particular, relações comerciais e investimentos poderiam resultar tanto de iniciativas britânicas quanto de decisões tomadas autonomamente por governos e grupos econômicos locais. A existência de dependência econômica, por si só, não demonstraria necessariamente a existência de controle político imperial.[50]
A própria história do termo império informal tornou-se posteriormente objeto de investigação. Estudos recentes mostraram que a expressão possuía antecedentes anteriores ao artigo de Gallagher e Robinson e que seus significados variaram ao longo do tempo. A contribuição de 1953 foi menos a criação absoluta do termo do que sua transformação em uma categoria historiográfica destinada a reinterpretar a expansão britânica como um sistema no qual influência econômica e poder político podiam operar sem soberania territorial direta.[50]
A noção de imperialismo informal também contribuiu para enfraquecer explicações monocausais da expansão imperial. A expansão britânica não poderia ser reduzida exclusivamente à busca de mercados, à exportação de capitais ou à conquista territorial. Comércio, investimentos, interesses estratégicos, diplomacia, instituições locais, conflitos internos e decisões das elites das sociedades envolvidas podiam combinar-se de maneiras diferentes em cada contexto histórico.[16][50]
Essa abordagem não elimina a dimensão coercitiva do imperialismo. A manutenção de relações informais podia depender da existência de uma superioridade militar que permanecia como possibilidade de intervenção, enquanto tratados desiguais, pressão diplomática e intervenções armadas podiam ser utilizados quando os mecanismos econômicos e políticos considerados suficientes pelas potências deixavam de funcionar. A distinção entre império formal e informal deve, portanto, ser entendida como uma diferença de mecanismos e graus de controle, e não como uma oposição simples entre coerção e ausência de coerção.[48]
O conceito de imperialismo informal tornou-se, desse modo, uma importante ferramenta para a historiografia do imperialismo, mas não constitui uma explicação universalmente aceita de todas as formas de dominação internacional. Seu principal legado foi ampliar a análise para além da administração colonial direta e mostrar que relações imperiais também podiam ser construídas por meio de formas indiretas de influência e controle.
Imperialismo, sistema-mundo e dependência
[editar | editar código]A partir das décadas de 1960 e 1970, novas abordagens passaram a analisar as relações de dominação internacional para além das formas tradicionais de colonialismo e das relações entre Estados. Entre elas destacam-se a teoria da dependência e a teoria do sistema-mundo, que procuraram compreender a formação histórica de uma economia mundial hierarquizada e as relações assimétricas entre diferentes regiões. Embora dialogassem com a tradição marxista e com as teorias do imperialismo, essas correntes não constituem simplesmente versões posteriores da formulação de Lenin. Elas deslocaram parte da análise para a estrutura histórica do sistema internacional e para as relações entre centro, periferia e semiperiferia.[51][52]
A teoria da dependência desenvolveu-se principalmente na América Latina entre as décadas de 1960 e 1970, em diálogo com a economia estruturalista da CEPAL, o marxismo e outras correntes de pensamento social latino-americano. Seus autores procuraram explicar por que o desenvolvimento econômico dos países latino-americanos não poderia ser compreendido simplesmente como uma etapa atrasada de um processo universal de modernização. A condição periférica seria produzida historicamente pelas relações estabelecidas entre economias dependentes e as economias dominantes do sistema internacional.[52]
Em Dependência e desenvolvimento na América Latina, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto analisaram a dependência como uma relação histórica entre estruturas econômicas, relações de classe e formas de articulação com o mercado internacional. Para os autores, a dependência não deveria ser entendida apenas como uma imposição externa exercida pelos países dominantes. Ela também envolvia coalizões sociais e políticas internas, cujos interesses podiam estar articulados às formas de inserção internacional das economias dependentes.[53]
Essa formulação distinguia-se, portanto, de uma interpretação puramente externa da dominação. As relações internacionais condicionavam as possibilidades de desenvolvimento, mas seus efeitos dependiam das estruturas sociais e políticas existentes em cada país. A dependência resultava da articulação entre fatores externos e internos, o que permitia explicar por que diferentes sociedades submetidas a condições internacionais semelhantes apresentavam trajetórias históricas distintas.[53]
Outras vertentes da teoria da dependência enfatizaram de maneira mais forte as relações de exploração entre centro e periferia. Ruy Mauro Marini, por exemplo, desenvolveu o conceito de superexploração do trabalho para analisar uma modalidade específica de inserção das economias dependentes no capitalismo mundial. Em sua interpretação, a transferência de valor para as economias centrais contribuiria para produzir mecanismos internos de compensação baseados na intensificação da exploração da força de trabalho.[54]
A teoria da dependência não formava, contudo, uma escola homogênea. Havia diferenças importantes entre interpretações que enfatizavam a estrutura econômica internacional e aquelas que atribuíam maior importância às relações de classe e às alianças políticas internas. Por isso, não é adequado tratar a expressão teoria da dependência como se designasse uma única explicação do desenvolvimento latino-americano ou do imperialismo.[52][55]
Paralelamente, Immanuel Wallerstein desenvolveu a teoria do sistema-mundo, cuja formulação inicial foi apresentada em The Modern World-System, publicado em 1974. Wallerstein propôs analisar o capitalismo como um sistema histórico que se constituiu em escala mundial e cuja estrutura não poderia ser reduzida à soma das economias nacionais. O sistema seria organizado por uma divisão internacional do trabalho e por relações assimétricas entre diferentes regiões.[56]
Wallerstein distinguiu três posições estruturais principais: centro, semiperiferia e periferia. As regiões centrais concentrariam atividades econômicas relativamente mais lucrativas e formas de controle político e econômico mais favoráveis; as regiões periféricas tenderiam a especializar-se em atividades subordinadas dentro da divisão internacional do trabalho; e a semiperiferia ocuparia uma posição intermediária, combinando características de centro e periferia.[57]
Essa abordagem modificou a unidade fundamental da análise histórica. Em vez de considerar o Estado nacional como principal unidade explicativa, a teoria do sistema-mundo privilegiou o funcionamento do sistema histórico mais amplo no qual diferentes Estados e regiões estavam inseridos. O desenvolvimento de uma determinada economia deveria, portanto, ser analisado em relação às transformações da economia-mundo capitalista.[56]
A relação entre sistema-mundo e imperialismo pode ser observada na maneira como o poder político e econômico das regiões centrais contribuiu para estruturar relações assimétricas de comércio, produção e circulação de capital. A expansão territorial dos impérios europeus constituiu um dos mecanismos históricos por meio dos quais essas relações foram estabelecidas e aprofundadas, embora a dominação do sistema-mundo não dependesse necessariamente do controle colonial direto de todos os territórios periféricos.[58]
A teoria do sistema-mundo também retomou, em escala mais ampla, alguns problemas presentes nas teorias clássicas do imperialismo. A concentração de poder econômico, a divisão internacional do trabalho e a transferência desigual dos benefícios da atividade econômica continuaram sendo questões centrais. Entretanto, a análise deslocou-se da disputa entre grandes potências e da exportação de capitais para a reprodução histórica de uma economia mundial hierarquizada.[59]
Há, contudo, diferenças importantes entre a teoria do sistema-mundo e a teoria leninista. Lenin procurava caracterizar uma fase específica do desenvolvimento do capitalismo, marcada pela concentração monopolista, pelo capital financeiro, pela exportação de capitais e pela partilha territorial do mundo. Wallerstein, por sua vez, examinou a formação e a reprodução de um sistema capitalista mundial ao longo de vários séculos, tratando a divisão centro-periferia como uma estrutura histórica mais ampla.[33][56]
A relação entre imperialismo e dependência também não deve ser reduzida a uma relação simples entre países imperialistas e países dependentes. As abordagens dependentistas chamaram atenção para a existência de grupos sociais internos que participavam das relações econômicas e políticas associadas à dependência. O funcionamento das estruturas internacionais dependia, portanto, de instituições, classes e interesses localizados também nas próprias sociedades periféricas.[53]
Essas perspectivas contribuíram para ampliar o conceito de imperialismo ao mostrar que relações de dominação podem persistir mesmo quando o domínio colonial formal é eliminado. A independência política não implica necessariamente a eliminação das desigualdades econômicas, das relações de dependência ou das assimetrias na capacidade de decisão internacional. A análise das relações pós-coloniais passou, desse modo, a considerar mecanismos financeiros, comerciais, tecnológicos e políticos que poderiam reproduzir hierarquias em condições de soberania formal.[52][57]
Ao mesmo tempo, essas abordagens não autorizam a utilização indiscriminada do conceito de imperialismo para qualquer relação desigual entre países. Dependência, periferização e posição subordinada no sistema mundial são categorias analíticas que podem coincidir com relações imperialistas em determinados contextos, mas não são sinônimos de imperialismo. A identificação de uma relação imperial exige a análise concreta dos mecanismos de poder, coerção, exploração ou controle envolvidos.
A teoria da dependência e a teoria do sistema-mundo contribuíram, assim, para deslocar o estudo do imperialismo de uma história centrada exclusivamente na expansão territorial europeia para uma análise das estruturas internacionais de longa duração. Seus conceitos permitiram investigar a persistência de hierarquias econômicas e políticas para além do colonialismo formal e estabelecer conexões entre expansão imperial, capitalismo mundial, divisão internacional do trabalho e desenvolvimento desigual.
Abordagens históricas, culturais e pós-coloniais
[editar | editar código]As interpretações formuladas entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX estabeleceram importantes eixos do debate sobre o imperialismo, mas não encerraram a discussão sobre suas causas, mecanismos e efeitos. Ao longo do século XX, diferentes correntes historiográficas e das ciências sociais passaram a questionar explicações que privilegiavam exclusivamente a economia ou as relações entre as grandes potências. O imperialismo passou a ser analisado também como fenômeno político, social, cultural e intelectual, envolvendo relações assimétricas de poder entre sociedades e formas diversas de produção de conhecimento sobre os povos submetidos à dominação imperial.[60][61]
Uma das transformações importantes ocorreu com o desenvolvimento de interpretações centradas no colonialismo e nas relações de poder. Historiadores passaram a examinar não apenas as decisões tomadas pelas metrópoles, mas também as estruturas administrativas, jurídicas e militares criadas nos territórios coloniais e as formas pelas quais essas estruturas reorganizaram as sociedades submetidas ao domínio imperial. Essa perspectiva deslocou parte da atenção da política externa das potências para as relações sociais produzidas no interior dos próprios impérios.[60]
A expansão dos estudos sobre colonialismo também contribuiu para questionar interpretações que apresentavam os povos colonizados apenas como objetos passivos da expansão europeia. Pesquisas posteriores passaram a enfatizar diferentes formas de negociação, adaptação, resistência e apropriação desenvolvidas por grupos locais diante das instituições imperiais. O funcionamento dos impérios passou, assim, a ser entendido como resultado de relações entre agentes metropolitanos e sociedades colonizadas, e não apenas como imposição unilateral de decisões tomadas nas capitais europeias.[62]
Outra transformação ocorreu com o desenvolvimento das abordagens associadas ao chamado imperialismo cultural. Essas interpretações chamaram atenção para formas de dominação que não dependiam diretamente da anexação territorial. Educação, religião, ciência, produção literária, imprensa, classificação racial e instituições culturais podiam participar da construção de hierarquias entre povos e da legitimação da autoridade imperial. O imperialismo passou, nesse sentido, a ser estudado também como um processo de produção e circulação de representações sobre sociedades consideradas colonizáveis ou subordinadas.[63]
A obra de Edward Said, especialmente Orientalism (1978), exerceu grande influência nesse campo. Said examinou a produção ocidental de representações sobre o chamado Oriente e argumentou que determinadas formas de conhecimento estavam relacionadas às relações históricas de poder entre sociedades europeias e povos do Oriente Médio e de outras regiões. Sua análise aproximou o estudo do imperialismo das questões de discurso, representação, conhecimento e autoridade cultural.[61]
A abordagem de Said não procurava substituir completamente as explicações econômicas ou políticas do imperialismo, mas ampliar o campo de investigação. O domínio imperial podia depender tanto de recursos militares e administrativos quanto da produção de categorias intelectuais capazes de classificar sociedades, estabelecer diferenças culturais e justificar relações hierárquicas. O conhecimento produzido sobre os povos colonizados tornou-se, assim, objeto de análise histórica em si mesmo.[63]
A partir da década de 1980, os chamados estudos subalternos contribuíram para deslocar novamente o foco da historiografia. Autores associados a essa corrente procuraram recuperar formas de ação política e experiências históricas que, segundo sua crítica, haviam sido marginalizadas pelas narrativas centradas nas elites coloniais e nacionais. O estudo do imperialismo passou a incorporar com maior intensidade as experiências de camponeses, trabalhadores, grupos subalternizados e outros sujeitos que não apareciam necessariamente nas fontes produzidas pelas instituições coloniais.[64]
Essa mudança também levou à crítica das narrativas que concebiam a história colonial exclusivamente como uma trajetória de modernização conduzida pelas potências europeias. Instituições coloniais podiam introduzir novas formas administrativas, jurídicas e econômicas, mas sua implantação envolvia conflitos, adaptações e reinterpretações locais. A modernização colonial passou, portanto, a ser analisada como processo contraditório, no qual formas europeias de organização social coexistiam com instituições, práticas e estruturas anteriores ou produzidas localmente.[62]
Outra linha importante foi o desenvolvimento de abordagens que procuraram superar a separação rígida entre história europeia e história colonial. A expansão imperial produziu redes de circulação de pessoas, mercadorias, capitais, informações, tecnologias e instituições que conectavam diferentes regiões do mundo. O império passou a ser estudado não apenas como uma relação vertical entre metrópole e colônia, mas também como uma estrutura formada por conexões entre diferentes territórios imperiais.[62]
Essa perspectiva contribuiu para o desenvolvimento da chamada história global. Em lugar de considerar os impérios como unidades isoladas, estudos posteriores passaram a investigar as redes transimperiais e as conexões entre diferentes áreas coloniais. Migrações, comércio, circulação de trabalhadores, transferência de conhecimentos e conflitos políticos atravessavam as fronteiras dos impérios e dificultavam a compreensão do imperialismo exclusivamente a partir das relações bilaterais entre uma metrópole e suas colônias.[65]
Essas abordagens contribuíram para ampliar a análise do imperialismo para além das decisões das grandes potências e das estruturas econômicas. A historiografia passou a considerar simultaneamente instituições, relações sociais, experiências dos grupos submetidos à dominação, circulação de conhecimentos e produção de representações. O imperialismo passou a ser estudado, assim, como fenômeno multidimensional, sem que essa ampliação implicasse necessariamente o abandono das explicações econômicas e políticas desenvolvidas pelas teorias clássicas.
Imperialismo do século XIX
[editar | editar código]
Os principais países que adotaram a prática do imperialismo:
Reino Unido
França
Bélgica
Itália
Alemanha
Portugal
Espanha
Países Baixos
Japão
Rússia
Império Otomano
O imperialismo do século XIX desenvolveu-se sobre uma história muito mais longa de expansão territorial, comércio, colonização e formação de impérios. A expressão novo imperialismo é utilizada pela historiografia para designar, sobretudo, a intensificação da expansão das grandes potências a partir das últimas décadas do século XIX, em particular entre aproximadamente 1870 e 1914. O qualificativo novo não significa, portanto, que a formação de impérios fosse uma novidade, mas que ocorreram mudanças importantes nas formas, na escala e nas condições internacionais da expansão imperial.[66]
A partir da década de 1870, as principais potências europeias ampliaram sua presença territorial na África, na Ásia e no Pacífico. Ao mesmo tempo, Estados não europeus, especialmente os Estados Unidos e o Império do Japão, passaram a desenvolver projetos próprios de expansão e afirmação imperial. O período foi marcado por uma combinação de competição entre Estados, interesses econômicos, transformações tecnológicas, estratégias militares, nacionalismo e diferentes formas de legitimação política e cultural da expansão.[66]
A expansão imperial não assumiu uma forma única. Em alguns territórios, as potências estabeleceram domínio colonial direto, com administração política e militar. Em outros, buscaram exercer influência econômica, diplomática ou estratégica sem incorporar formalmente o território ao próprio império. A distinção entre império formal e informal, desenvolvida especialmente pela historiografia do Império Britânico, tornou-se importante justamente porque permite compreender relações de dominação que não dependiam necessariamente da anexação territorial.[16]
A expansão europeia também ocorreu em contextos nos quais sociedades africanas e asiáticas possuíam estruturas políticas próprias. A conquista colonial não foi, portanto, um simples preenchimento de espaços considerados "vazios". Em diversas regiões, a expansão europeia envolveu guerras, tratados, alianças, disputas entre poderes locais e intervenções militares. Os Estados e sociedades submetidos ao avanço imperial participaram desses processos de diferentes maneiras, negociando, resistindo, colaborando ou procurando utilizar a presença das potências estrangeiras em benefício de seus próprios interesses.[62]
Na África, a transformação foi particularmente rápida. Durante as últimas décadas do século XIX, diferentes potências europeias passaram a estabelecer ou ampliar reivindicações territoriais no continente. O processo conhecido como Partilha de África envolveu principalmente Reino Unido, França, Alemanha, Bélgica, Portugal e Itália, além da presença espanhola em áreas específicas. A expansão ocorreu por meio de expedições, tratados, ocupações militares e estabelecimento de administrações coloniais.[67]
A Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, constituiu um marco diplomático desse processo. Convocada pelo governo alemão de Otto von Bismarck, a conferência reuniu representantes das principais potências europeias e estabeleceu regras para determinadas formas de ocupação e reivindicação territorial na África. Ela não dividiu o continente de maneira direta entre as potências presentes, mas estabeleceu princípios diplomáticos que facilitaram o reconhecimento internacional de futuras reivindicações territoriais e contribuíram para acelerar a competição imperial.[68]
A expansão britânica foi particularmente extensa. O Império Britânico combinava colônias de administração direta, territórios de povoamento europeu, protetorados, domínios e relações informais de influência. A importância estratégica da Índia e das rotas marítimas que a conectavam à Europa contribuiu para a expansão britânica em diferentes regiões da África, do Oriente Médio e da Ásia. O controle de pontos estratégicos e das comunicações imperiais podia ser tão importante quanto a aquisição de grandes extensões territoriais.[69]
A França, por sua vez, ampliou significativamente seu domínio territorial na África e na Ásia. A expansão francesa esteve relacionada tanto à competição internacional quanto a projetos políticos e culturais próprios, incluindo diferentes concepções da missão civilizadora. O império francês tornou-se uma estrutura territorial extensa, especialmente na África Ocidental e no Norte da África, embora suas formas de administração variassem de acordo com as regiões e circunstâncias locais.[66]
A Alemanha, a Itália e outras potências europeias ingressaram posteriormente na competição colonial. A unificação alemã, em 1871, modificou o equilíbrio de poder europeu e, durante a década de 1880, o Império Alemão adquiriu territórios na África e no Pacífico. A Itália também iniciou sua expansão colonial, sobretudo no Nordeste da África. A competição entre as potências contribuiu para transformar a expansão colonial em uma questão relacionada ao prestígio e à posição internacional dos Estados europeus.[66]
A expansão imperial não ficou restrita à África. Na Ásia, as potências europeias ampliaram ou consolidaram seus domínios na Índia, no Sudeste Asiático e em diferentes regiões do Oriente Médio e da China. A expansão francesa na Indochina, a consolidação britânica na Índia e a crescente intervenção das potências europeias na China demonstram que o imperialismo do período assumiu formas distintas conforme as estruturas políticas e econômicas das sociedades envolvidas.[66]
O Japão constituiu um caso particularmente importante. A partir da Restauração Meiji, o país passou por uma profunda transformação institucional, econômica e militar e passou a disputar posição com as potências europeias. A vitória japonesa na Primeira Guerra Sino-Japonesa e, posteriormente, na Guerra Russo-Japonesa demonstrou a emergência de uma potência imperial não europeia. A anexação de Taiwan, em 1895, e a posterior incorporação da Coreia, em 1910, fizeram parte da formação do império japonês.[65]
Os Estados Unidos também desenvolveram uma política expansionista no final do século XIX. A Guerra Hispano-Americana de 1898 resultou na transferência de Porto Rico para o controle norte-americano e na ocupação das Filipinas, além de contribuir para o estabelecimento de uma posição dominante dos Estados Unidos em Cuba. A anexação do Havaí e a crescente intervenção norte-americana no Caribe e no Pacífico ampliaram a projeção internacional do país.[65]
A expansão imperial ocorreu paralelamente a importantes transformações tecnológicas. Ferrovias, navios a vapor, telégrafo, novas armas e avanços médicos reduziram determinadas dificuldades logísticas enfrentadas pelas potências que procuravam operar a longas distâncias. Essas tecnologias não determinaram por si mesmas a expansão imperial, mas alteraram as condições materiais nas quais campanhas militares, administrações coloniais, comércio e circulação de pessoas podiam ser realizados.[66]
A dimensão econômica também foi relevante, embora sua importância e seus mecanismos sejam objeto de controvérsia historiográfica. O crescimento do comércio internacional, dos investimentos externos e dos fluxos de capitais criou relações econômicas cada vez mais densas entre diferentes regiões. Entretanto, os padrões de investimento não coincidiram necessariamente com a expansão territorial: capitais europeus foram frequentemente direcionados para outros países europeus e para regiões formalmente independentes, e nem todas as colônias constituíam destinos prioritários para investimentos metropolitanos.[66]
Por isso, a historiografia posterior questionou explicações que tratavam a expansão colonial como consequência automática da necessidade de exportação de capitais. Estudos de história econômica demonstraram que a relação entre investimento externo e aquisição de colônias variava significativamente entre países, setores e regiões. O vínculo entre capitalismo e expansão imperial deve, assim, ser investigado empiricamente em cada contexto, em vez de ser presumido como uma relação causal universal.[66]
O imperialismo também foi sustentado por discursos de legitimação. Ideias de superioridade racial, teorias evolucionistas, nacionalismo, cristianismo missionário e diferentes versões da chamada missão civilizadora foram mobilizadas para justificar a expansão sobre povos considerados inferiores ou incapazes de governar seus próprios territórios. Esses discursos não eram idênticos entre si e não explicam isoladamente a expansão imperial, mas contribuíram para construir sua legitimidade política e cultural.[63]
A expansão imperial produziu igualmente diferentes formas de resistência. Estados e sociedades africanas e asiáticas desenvolveram estratégias militares, diplomáticas e políticas para enfrentar ou limitar o domínio estrangeiro. Em muitos casos, a resistência foi derrotada militarmente, mas a conquista não significou a eliminação das formas locais de organização política e social. As administrações coloniais tiveram de negociar continuamente com autoridades locais, grupos religiosos, elites econômicas e outras instituições para tornar efetivo seu domínio.[62]
O resultado foi uma ordem imperial caracterizada por diferentes graus de soberania, dependência e integração. Alguns territórios foram incorporados diretamente aos impérios coloniais; outros permaneceram formalmente independentes, mas sujeitos a pressões econômicas, diplomáticas ou militares; e outros mantiveram maior capacidade de autonomia ao negociar sua posição no sistema internacional. O imperialismo do final do século XIX não constituiu, portanto, um sistema uniforme de dominação.[16][62]
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a expansão imperial havia contribuído para reorganizar profundamente as relações políticas e econômicas entre diferentes regiões do mundo. A competição entre as grandes potências coexistia com redes de comércio, investimento, migração e circulação de informações que ultrapassavam as fronteiras dos impérios. A ordem internacional de 1914 era, simultaneamente, imperial e globalizada, e suas contradições constituiriam parte importante do contexto no qual se desenvolveu a crise que conduziu à guerra.[65]
A Partilha de África
[editar | editar código]A chamada Partilha de África designa o processo pelo qual, entre as últimas décadas do século XIX e o início do século XX, as principais potências europeias ampliaram seu controle político e territorial sobre grande parte do continente africano. O processo foi marcado por expedições militares, tratados, ocupações territoriais, estabelecimento de protetorados e criação de administrações coloniais. Ao contrário de uma divisão planejada de todo o continente em um único momento, a partilha ocorreu de maneira gradual e por meio de disputas sucessivas entre Estados europeus e sociedades e Estados africanos.[70]
Até aproximadamente a década de 1870, o controle territorial europeu na África estava concentrado sobretudo em áreas costeiras e em alguns territórios específicos. A maior parte do interior do continente permanecia sob o domínio de diferentes Estados, reinos, comunidades políticas e sociedades organizadas segundo estruturas próprias. A expansão posterior modificou rapidamente essa situação, especialmente a partir do aumento da presença europeia nas regiões do interior.[71]
A expansão foi precedida e acompanhada por diferentes formas de exploração comercial, atividade missionária e reconhecimento geográfico. Exploradores europeus percorreram regiões anteriormente pouco conhecidas pelas sociedades europeias, produzindo informações que posteriormente foram utilizadas por governos e organizações privadas. A exploração geográfica não foi, por si só, equivalente à conquista territorial, mas contribuiu para ampliar o conhecimento europeu sobre as rotas, recursos e estruturas políticas existentes no continente.[72]
Um dos episódios mais importantes desse processo foi a atuação de Leopoldo II da Bélgica na região do Congo. Sob sua iniciativa, uma associação internacional inicialmente apresentada como empreendimento humanitário e científico estabeleceu uma extensa área de influência na África Central. Em 1885, o Estado Livre do Congo foi reconhecido internacionalmente como território sob a soberania pessoal de Leopoldo II, permanecendo formalmente separado da Bélgica até sua anexação pelo Estado belga em 1908.[73]
A expansão no Congo também demonstrou a importância da competição internacional na definição das fronteiras coloniais. A região despertava interesse devido à sua posição estratégica, às possibilidades comerciais e às expectativas europeias em relação aos recursos naturais. A atuação de Leopoldo II preocupou outras potências, especialmente a França e o Reino Unido, contribuindo para a necessidade de estabelecer regras diplomáticas para a competição imperial.[74]
Nesse contexto, o governo alemão de Otto von Bismarck convocou a Conferência de Berlim, realizada entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885. Participaram representantes de catorze Estados, entre eles as principais potências europeias e os Estados Unidos. A conferência discutiu questões relacionadas ao comércio, à navegação e às condições de ocupação de territórios africanos, estabelecendo princípios destinados a regular as reivindicações territoriais das potências europeias.[68]
A Conferência de Berlim não realizou uma divisão territorial completa da África entre as potências participantes. Tampouco as fronteiras coloniais posteriores foram simplesmente traçadas durante as reuniões realizadas em Berlim. Seu significado esteve principalmente na definição de regras diplomáticas para o reconhecimento de determinadas reivindicações e na criação de condições que facilitaram a posterior ocupação efetiva de territórios.[68]
Entre os princípios estabelecidos estava a noção de ocupação efetiva. A simples declaração de uma reivindicação territorial não seria suficiente para garantir seu reconhecimento pelas demais potências; era necessário demonstrar determinado grau de autoridade e presença no território reivindicado. Essa regra estimulou governos europeus a acelerar expedições, tratados e ocupações para evitar que outras potências estabelecessem primeiro suas próprias posições.[75]
A competição tornou-se especialmente intensa entre a França e o Reino Unido. A França procurava consolidar uma faixa territorial que ligasse suas possessões do Norte da África às regiões da África Ocidental e Central, enquanto os britânicos buscavam ampliar seus territórios e proteger as comunicações entre diferentes partes de seu império. A sobreposição dessas estratégias produziu sucessivas crises diplomáticas.[76]
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em Fachoda, no atual Sudão do Sul, em 1898. Uma expedição francesa comandada por Jean-Baptiste Marchand encontrou forças britânicas lideradas por Horatio Kitchener. A crise de Fachoda colocou em confronto dois projetos imperiais e quase provocou um conflito entre França e Reino Unido. A retirada francesa contribuiu posteriormente para a aproximação diplomática entre os dois países e para a formação da Entente Cordiale em 1904.[77]

o Reino Unido também enfrentou conflitos com sociedades africanas que procuravam preservar sua autonomia. As guerras de conquista britânicas na África Austral envolveram, entre outros, os zulus, os bôeres e diferentes comunidades africanas. A derrota de forças britânicas na Batalha de Isandlwana, em 1879, demonstrou que a expansão europeia não era um processo militarmente simples e que os Estados e sociedades africanas podiam oferecer resistência organizada.[79]
A resistência africana ocorreu em diferentes formas e regiões. Estados como o Império Etíope procuraram preservar sua soberania por meio da diplomacia, da modernização militar e da resistência armada. Em 1896, forças etíopes comandadas pelo imperador Menelik II derrotaram o exército italiano na Batalha de Adwa. A vitória impediu a incorporação da Etiópia ao império colonial italiano naquele momento e tornou o país um dos principais exemplos de preservação de soberania africana diante da expansão europeia.[80]
A expansão colonial italiana apresentou, posteriormente, novo episódio de conflito com a Etiópia. Em 1935, décadas depois da derrota de Adwa, a Itália fascista invadiu o país e estabeleceu uma ocupação entre 1936 e 1941. O episódio demonstra que a história da expansão imperial na África não se encerrou com a estabilização das fronteiras coloniais nas primeiras décadas do século XX.[81]
A França tornou-se uma das principais potências coloniais do continente. Seu império africano abrangia vastos territórios na África Ocidental e na África Equatorial, administrados por diferentes estruturas coloniais. A expansão francesa foi acompanhada por concepções distintas sobre assimilação, associação e administração indireta, embora a prática variasse consideravelmente entre territórios e períodos.[62]
o Reino Unido também consolidou um vasto conjunto de possessões. Entre os territórios britânicos estavam o Egito, o Sudão, a África Oriental Britânica, Uganda, Nigéria, a Costa do Ouro, Serra Leoa, Gâmbia e extensas áreas da África Austral. A administração britânica combinava diferentes formas de governo, incluindo administração direta e diferentes modalidades de administração indireta.[62]
Portugal procurou igualmente preservar e ampliar suas possessões africanas, sobretudo Angola e Moçambique. A pretensão portuguesa de estabelecer uma ligação territorial entre os dois territórios entrou em conflito com os interesses britânicos durante a chamada Crise do Ultimato, em 1890. O governo português foi obrigado a abandonar o projeto diante da pressão britânica, episódio que teve forte impacto na política e no nacionalismo portugueses.[82]
A Alemanha estabeleceu possessões na África Oriental, no Sudoeste Africano, nos Camarões e no Togo. A administração colonial alemã foi marcada por diferentes formas de coerção e por guerras contra populações locais. Na África Oriental Alemã, a Revolta Maji Maji de 1905-1907 foi uma das principais insurreições contra o domínio colonial alemão.[62]
No Sudoeste Africano Alemão, a repressão das revoltas dos hereros e namaquas, entre 1904 e 1908, resultou em massacres e em políticas de confinamento e deslocamento forçado. A historiografia contemporânea considera esses acontecimentos um dos exemplos mais extremos da violência colonial alemã na África e um antecedente importante para os debates sobre genocídio no período colonial.[83]
A conquista colonial também transformou profundamente as estruturas políticas e econômicas africanas. As administrações europeias estabeleceram novas fronteiras, sistemas tributários, formas de trabalho compulsório ou coercitivo e estruturas voltadas à produção e exportação de determinadas matérias-primas. Ferrovias e outras infraestruturas foram construídas em diversos territórios, frequentemente subordinadas às necessidades administrativas, militares e econômicas dos impérios.[62]
As fronteiras coloniais não corresponderam necessariamente às fronteiras das sociedades políticas existentes. Povos que anteriormente mantinham relações políticas ou culturais foram separados por fronteiras coloniais, enquanto diferentes grupos foram incorporados a uma mesma unidade administrativa. A posterior transformação dessas fronteiras em fronteiras dos Estados africanos independentes tornou o legado territorial do colonialismo uma questão central na história política do continente no século XX.[62]
A Partilha de África foi, portanto, simultaneamente um processo de competição entre potências europeias e um processo de transformação das sociedades africanas. A historiografia contemporânea procura analisar essas duas dimensões conjuntamente, evitando tanto uma interpretação que reduza a expansão colonial à rivalidade entre as potências europeias quanto uma narrativa que desconsidere as iniciativas, estratégias e resistências das sociedades africanas.[62]
Ao final do processo de conquista colonial, a maior parte do continente africano encontrava-se sob domínio europeu. As principais exceções eram a Etiópia, que preservou sua soberania até a invasão italiana de 1935, e a Libéria, que manteve sua independência formal. A configuração territorial estabelecida durante o período colonial permaneceria como uma das principais estruturas políticas da África até a onda de descolonização posterior à Segunda Guerra Mundial.
Imperialismo na Ásia
[editar | editar código]A expansão imperialista na Ásia apresentou características distintas da Partilha de África. Em várias regiões do continente, as potências europeias encontraram Estados com estruturas políticas, administrativas e militares consolidadas, além de sociedades densamente povoadas e economias integradas a redes comerciais de longa duração. A expansão imperial assumiu, por isso, formas variadas, incluindo a conquista territorial, a imposição de tratados desiguais, o estabelecimento de concessões e zonas de influência, o controle de rotas comerciais e a intervenção política e militar.[66][65]
A Índia constituiu um dos principais centros da expansão imperial britânica. O domínio da Companhia Britânica das Índias Orientais havia se ampliado progressivamente desde o século XVIII, por meio de conquistas militares, alianças com poderes locais e diferentes formas de administração territorial. A Revolta Indiana de 1857 marcou uma ruptura decisiva nesse processo. Após a repressão da revolta, o governo britânico transferiu a administração dos territórios da Companhia para a Coroa, estabelecendo uma nova estrutura política que ficou conhecida como Raj Britânico.[84]
O domínio britânico na Índia não se baseava exclusivamente na administração direta. Uma parcela significativa do território permaneceu sob o governo de príncipes indianos que mantinham soberania interna limitada e relações de subordinação com a autoridade britânica. A combinação entre territórios diretamente administrados e Estados principescos permitiu à Reino Unido exercer controle político sobre grande parte do subcontinente sem estabelecer uma administração colonial uniforme em todas as regiões.[85]
A economia indiana foi profundamente reorganizada durante o domínio britânico. A integração ao mercado imperial estimulou determinadas atividades de produção e exportação, enquanto setores artesanais e manufatureiros sofreram os efeitos da concorrência com produtos industriais britânicos. A infraestrutura ferroviária, portuária e telegráfica foi ampliada, contribuindo simultaneamente para a integração territorial do subcontinente, para a circulação comercial e para a capacidade militar e administrativa do Estado colonial.[86][87]
A Índia ocupava também posição estratégica na política imperial britânica. O subcontinente constituía uma importante base militar e financeira do Império Britânico e estava relacionado às disputas pela Ásia Central e pelo acesso às rotas que conduziam ao Oriente Médio. A chamada Grande Jogo envolveu principalmente a competição entre Reino Unido e Império Russo pela influência na Ásia Central durante o século XIX.[88]
A expansão britânica alcançou igualmente o Sudeste Asiático. Birmânia, Malásia e outras áreas foram progressivamente incorporadas à esfera imperial britânica, enquanto a França consolidou seu domínio sobre a Indochina Francesa, abrangendo territórios correspondentes principalmente ao atual Vietnã, Laos e Camboja. A região tornou-se, assim, objeto de uma competição imperial que combinava interesses econômicos, estratégicos e políticos.[66]
A expansão francesa na Indochina ocorreu por meio de intervenções militares, tratados e estabelecimento progressivo de estruturas coloniais. A conquista não foi um processo instantâneo, e diferentes sociedades locais resistiram ao avanço francês. O domínio colonial envolveu posteriormente a reorganização administrativa e econômica dos territórios, com integração crescente às redes comerciais do império francês.[62]
A situação da China foi diferente. O Império Qing não foi formalmente transformado em uma colônia europeia, mas sofreu crescente interferência estrangeira durante o século XIX. As Guerras do Ópio e os tratados que se seguiram ampliaram os privilégios comerciais e jurídicos das potências estrangeiras e reduziram a capacidade do governo Qing de controlar plenamente determinados aspectos das relações econômicas e territoriais em seu próprio país.[89]
A derrota chinesa na Primeira Guerra do Ópio (1839–1842) resultou no Tratado de Nanquim, que obrigou o governo Qing a realizar concessões significativas aos britânicos. Entre elas estava a cessão de Hong Kong e a abertura de portos ao comércio britânico. Tratados posteriores ampliaram os privilégios das potências estrangeiras e contribuíram para a formação de um sistema de relações que a historiografia chinesa posteriormente caracterizaria como a era dos tratados desiguais.[89]
A intervenção estrangeira na China não se limitou ao Reino Unido. França, Rússia, Alemanha, Japão e outras potências obtiveram concessões, privilégios comerciais ou posições estratégicas. Diferentes cidades e regiões passaram a abrigar concessões estrangeiras, nas quais as potências exerciam graus variados de autoridade. A China permaneceu formalmente soberana, mas sua capacidade de controlar partes de seu território e de definir autonomamente suas relações econômicas internacionais foi progressivamente limitada.[90]
A situação chinesa é frequentemente utilizada para demonstrar a importância do conceito de imperialismo informal. Em vez da anexação integral de um território, as potências estrangeiras estabeleceram mecanismos que lhes asseguravam privilégios comerciais, jurídicos, financeiros e estratégicos. O caso chinês mostra, assim, que a expansão imperial podia ocorrer por meio de relações de soberania limitada e de influência externa sem a transformação imediata de todo o país em uma colônia formal.[16]
A expansão russa apresentou características próprias. O Império Russo avançou para a Ásia Central durante o século XIX, incorporando progressivamente territórios e estabelecendo relações de dependência com diferentes entidades políticas locais. A expansão russa aproximou suas fronteiras das áreas de influência britânica, contribuindo para a competição conhecida como Grande Jogo.[88]
Ao contrário das potências marítimas da Europa Ocidental, a expansão russa na Ásia ocorreu em grande medida por continuidade territorial. A fronteira imperial avançou progressivamente para o Cáucaso, a Ásia Central e o Extremo Oriente. Essa característica dificultou a distinção entre expansão continental, conquista colonial e segurança de fronteira, categorias que frequentemente se sobrepunham na política imperial russa.[65]
O Japão constitui um caso particularmente importante porque sua transformação no final do século XIX produziu uma potência imperial não europeia. A Restauração Meiji, iniciada em 1868, foi acompanhada por reformas administrativas, militares, fiscais e econômicas que fortaleceram o Estado japonês. A construção de forças armadas modernas permitiu ao Japão competir militarmente com outras potências asiáticas e, posteriormente, com potências europeias.[91]
A vitória japonesa na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–1895) marcou uma mudança importante no equilíbrio de poder no Leste Asiático. O Japão derrotou o Império Qing e obteve, entre outras vantagens, o reconhecimento de sua posição sobre a Coreia e a cessão de Taiwan. O conflito demonstrou a transformação do Japão em uma potência militar regional e enfraqueceu ainda mais a posição internacional do governo Qing.[92]
A expansão japonesa prosseguiu no início do século XX. A vitória na Guerra Russo-Japonesa (1904–1905) produziu um impacto internacional ainda maior, pois o Japão derrotou uma das principais potências europeias. O conflito resultou na ampliação da influência japonesa sobre a Coreia e sobre posições estratégicas na Manchúria. Em 1910, a Coreia foi formalmente anexada ao Império Japonês.[93]
O imperialismo japonês não pode ser explicado simplesmente como uma imitação da expansão europeia. Embora o Japão tenha incorporado instituições, tecnologias e práticas militares provenientes da Europa e dos Estados Unidos, sua expansão estava relacionada também a transformações internas do Estado japonês, à competição regional e a concepções próprias de segurança, prestígio e formação de uma esfera de influência no Leste Asiático.[92]
A Guerra Russo-Japonesa também teve consequências simbólicas para a história do imperialismo. A vitória japonesa demonstrou que uma potência asiática podia derrotar militarmente um grande império europeu em uma guerra moderna. O acontecimento foi acompanhado com atenção por movimentos políticos e intelectuais de diferentes regiões da Ásia e contribuiu para questionar a ideia de uma superioridade militar europeia universal.[65]
A expansão imperial na Ásia produziu, portanto, uma configuração mais complexa do que a observada em muitas regiões africanas. Potências europeias coexistiam com Estados asiáticos que preservavam diferentes graus de soberania e que, em alguns casos, também se transformaram em potências imperiais. O Japão tornou-se ele próprio um império colonial, enquanto China, Pérsia, Sião e outras sociedades procuraram preservar diferentes graus de autonomia diante das pressões estrangeiras.[65]
O Sião, correspondente em grande medida à atual Tailândia, constitui um exemplo de preservação de independência formal por meio de diplomacia e reformas internas. Pressionado pelas expansões britânica e francesa, o Estado siamês realizou concessões territoriais e comerciais, ao mesmo tempo em que procurou fortalecer suas instituições administrativas e preservar sua posição como Estado-tampão entre os impérios britânico e francês no Sudeste Asiático.[65]
A expansão imperial na Ásia também alterou profundamente as relações entre economia, soberania e comércio internacional. A abertura forçada de portos, a criação de concessões estrangeiras, o controle de recursos e a construção de infraestruturas integraram diferentes regiões às redes econômicas mundiais em condições assimétricas. Essas transformações contribuíram para a formação de relações de dependência que posteriormente seriam analisadas pelas teorias do imperialismo e da dependência.[59][52]
A experiência asiática demonstra, desse modo, que o imperialismo do final do século XIX não pode ser reduzido à conquista colonial direta. A dominação podia assumir a forma de administração territorial, protetorado, concessão, privilégio comercial, influência diplomática ou controle estratégico. A diversidade dessas experiências constitui uma das razões pelas quais a historiografia passou a distinguir entre diferentes modalidades de império e de poder imperial.[16]
No início do século XX, a Ásia encontrava-se profundamente integrada às disputas imperiais. A presença britânica na Índia e em outras regiões, a expansão russa na Ásia Central, a influência europeia sobre a China, o domínio francês na Indochina e a emergência do Japão como potência imperial constituíam partes interligadas de uma ordem internacional caracterizada por competição, dependência econômica e crescente circulação de pessoas, capitais e mercadorias.[65]
Estados Unidos e o imperialismo nas Américas
[editar | editar código]A expansão dos Estados Unidos durante o século XIX apresentou características próprias e não pode ser reduzida à experiência dos impérios coloniais europeus. Desde a independência, a política norte-americana esteve associada à expansão territorial no continente, à incorporação de novos territórios e à crescente projeção econômica e diplomática no hemisfério ocidental. A partir das últimas décadas do século XIX, essa expansão passou a assumir também características explicitamente imperiais, sobretudo no Caribe e no Pacífico.[94]
A expansão territorial norte-americana ocorreu inicialmente sobretudo sobre territórios situados na América do Norte. A compra da Luisiana da França, em 1803, duplicou aproximadamente a extensão territorial dos Estados Unidos e abriu caminho para uma expansão em direção ao oeste. Posteriormente, a incorporação da Flórida, a anexação do Texas e a guerra contra o México ampliaram significativamente o território sob controle norte-americano.[94]
A Guerra Mexicano-Americana (1846–1848) resultou na incorporação pelos Estados Unidos de vastos territórios anteriormente pertencentes ao México. O Tratado de Guadalupe Hidalgo transferiu para os Estados Unidos regiões que correspondem atualmente a partes da Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México, Colorado e Wyoming. A expansão territorial foi acompanhada por deslocamentos populacionais, conflitos com populações indígenas e disputas sobre a incorporação política e econômica dos novos territórios.[94]
A expansão para o oeste foi frequentemente legitimada pela ideia do Destino Manifesto. A expressão, popularizada pelo jornalista John L. O'Sullivan em 1845, apresentava a expansão territorial norte-americana como uma espécie de missão histórica. Essa linguagem combinava nacionalismo, excepcionalismo e concepções de superioridade cultural, contribuindo para legitimar a incorporação de novos territórios e a subordinação de populações indígenas e de outras sociedades consideradas externas à comunidade política norte-americana.[94]
A expansão continental, contudo, não deve ser identificada automaticamente com o imperialismo ultramarino que se desenvolveu posteriormente. A anexação de territórios contíguos e sua incorporação progressiva à estrutura política dos Estados Unidos apresentavam características distintas do estabelecimento de colônias ou protetorados em territórios situados fora da América do Norte. A distinção é importante para evitar que diferentes formas de expansão sejam tratadas como um único fenômeno.[94]
A Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente James Monroe em 1823, constituiu outro elemento importante da política externa norte-americana. A doutrina declarava que novas intervenções ou tentativas de colonização europeia nas Américas seriam consideradas incompatíveis com os interesses dos Estados Unidos. Em sua formulação original, contudo, a capacidade norte-americana de fazer cumprir essa posição era limitada, e a própria doutrina adquiriu significados diferentes ao longo do século XIX.[95]
Durante boa parte do século XIX, a proteção das Américas contra novas intervenções europeias dependia também da posição da próprio Reino Unido, cuja supremacia naval contribuía para limitar a possibilidade de recolonização europeia. A interpretação da Doutrina Monroe como fundamento de uma esfera de influência exclusivamente norte-americana consolidou-se progressivamente à medida que os Estados Unidos ampliaram seu poder econômico, militar e diplomático.[95]
A Guerra Civil Americana (1861–1865) interrompeu temporariamente a expansão externa, mas a rápida industrialização posterior fortaleceu a posição econômica dos Estados Unidos. Nas últimas décadas do século XIX, o país tornou-se uma grande potência industrial, ampliou sua capacidade produtiva e financeira e passou a buscar maior participação no comércio internacional. A expansão econômica foi acompanhada por debates internos sobre a necessidade de conquistar mercados externos e ampliar a presença norte-americana no mundo.[96]
A década de 1890 marcou uma mudança importante. Setores políticos e intelectuais passaram a defender uma presença internacional mais ativa, enquanto estrategistas como Alfred Thayer Mahan enfatizavam a importância do poder naval, das bases marítimas e do controle das rotas comerciais para a projeção de uma grande potência. A construção de uma marinha moderna e a aquisição de posições estratégicas no Caribe e no Pacífico tornaram-se elementos importantes da política externa norte-americana.[97]
A Guerra Hispano-Americana de 1898 constituiu um marco dessa transformação. O conflito começou em meio à crise do domínio espanhol em Cuba e à crescente intervenção política norte-americana na questão cubana. A vitória dos Estados Unidos sobre a Espanha resultou no fim do domínio espanhol sobre Cuba e na transferência de Porto Rico, Guam e Filipinas para os Estados Unidos.[98]
Cuba não foi formalmente anexada pelos Estados Unidos, mas sua independência ficou condicionada por mecanismos que asseguravam aos norte-americanos ampla capacidade de intervenção. A Emenda Platt, incorporada à legislação norte-americana em 1901 e posteriormente integrada à relação constitucional entre Cuba e Estados Unidos, autorizava intervenções norte-americanas em determinadas circunstâncias e contribuiu para estabelecer uma relação de tutela sobre a política cubana.[99]
A situação das Filipinas foi diferente. Após a derrota espanhola, os Estados Unidos assumiram o controle do arquipélago, o que provocou resistência do movimento nacionalista filipino liderado por Emilio Aguinaldo. A Guerra Filipino-Americana, iniciada em 1899, prolongou-se por vários anos e envolveu campanhas militares, repressão e reorganização da administração colonial. A guerra demonstrou que a expansão norte-americana podia assumir formas semelhantes às dos impérios coloniais europeus.[99]
A anexação do Havaí em 1898 reforçou a posição norte-americana no Pacífico. O arquipélago possuía importância estratégica para as comunicações marítimas com a Ásia e tornou-se posteriormente uma das principais bases da projeção militar norte-americana no Pacífico. A expansão para o Pacífico aproximou os Estados Unidos das disputas imperiais que envolviam também Japão e potências europeias.[98]
O estabelecimento do controle norte-americano sobre territórios ultramarinos provocou intenso debate político dentro dos próprios Estados Unidos. A Liga Anti-Imperialista Americana, fundada em 1898, reuniu intelectuais, políticos e outros setores que criticavam a aquisição de territórios e a subordinação de populações estrangeiras. Seus opositores, por outro lado, defendiam a expansão como necessária à segurança, ao comércio e à posição internacional do país.[99]
A controvérsia demonstrava que o termo imperialismo já possuía forte dimensão política e normativa no debate norte-americano. A expansão podia ser apresentada como uma política de segurança e abertura de mercados ou, inversamente, como uma violação dos princípios republicanos e do direito de autodeterminação. O conflito entre essas interpretações permaneceu presente na política externa dos Estados Unidos ao longo do século XX.[99]
No Caribe, a política norte-americana assumiu progressivamente uma forma de intervenção recorrente. A importância estratégica da região aumentou com a expansão comercial e naval e, posteriormente, com a construção do Canal do Panamá. Os Estados Unidos procuraram impedir a intervenção de potências europeias e consolidar uma posição dominante sobre os países do Caribe e da América Central.[100]
O chamado Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, anunciado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904, ampliou significativamente a interpretação da doutrina. Roosevelt afirmou que uma situação de "desordem crônica" ou incapacidade de determinados Estados latino-americanos poderia justificar a intervenção dos Estados Unidos. A doutrina passou, assim, a ser utilizada para fundamentar uma política de intervenção direta em países do Caribe e da América Central.[100]
A construção do Canal do Panamá tornou-se um dos principais projetos estratégicos dessa política. Os Estados Unidos apoiaram a separação do Panamá da Colômbia em 1903 e posteriormente obtiveram direitos para construir e controlar o canal e sua zona adjacente. A abertura do canal, em 1914, alterou significativamente as comunicações marítimas entre os oceanos Atlântico e Pacífico e ampliou a capacidade norte-americana de projetar poder naval em escala global.[101]
A política norte-americana na América Central e no Caribe combinou diferentes mecanismos de poder. Em determinados casos, os Estados Unidos recorreram à ocupação militar; em outros, utilizaram pressão diplomática, controle financeiro, acordos comerciais ou apoio a governos considerados favoráveis aos seus interesses. A influência norte-americana não dependia, portanto, da transformação de todos os países da região em colônias formais.[102]
Esse padrão aproxima a experiência norte-americana da noção de imperialismo informal. A intervenção política e militar podia ser utilizada para preservar interesses estratégicos e econômicos sem que o território submetido fosse formalmente incorporado aos Estados Unidos. O Caribe e a América Central tornaram-se, nesse sentido, uma área privilegiada para o exercício de uma hegemonia regional norte-americana.[16]
A expansão norte-americana também deve ser analisada em relação à economia mundial. O crescimento industrial, a expansão das empresas norte-americanas e a busca por novos mercados ocorreram simultaneamente à consolidação do país como potência financeira. Contudo, a relação entre interesses econômicos e decisões imperiais não foi automática. Estratégias de segurança, competição internacional, ideologias expansionistas e disputas políticas internas também contribuíram para a formulação da política externa.[97]
A experiência norte-americana no final do século XIX e início do século XX demonstra, portanto, que o imperialismo assumiu formas distintas fora dos impérios coloniais europeus tradicionais. Os Estados Unidos combinaram expansão territorial continental, aquisição de territórios ultramarinos, controle de posições estratégicas, intervenção militar e estabelecimento de relações econômicas e políticas assimétricas com países formalmente independentes.[98][16]
No início do século XX, os Estados Unidos haviam se convertido em uma potência com capacidade de atuação simultaneamente continental, caribenha, pacífica e, cada vez mais, global. A Guerra Hispano-Americana, a ocupação das Filipinas, o controle estratégico do Caribe e a construção do Canal do Panamá marcaram a passagem de uma política predominantemente continental para uma política externa de alcance mundial. Esse processo colocou os Estados Unidos entre as principais potências imperialistas do período anterior à Primeira Guerra Mundial.[101]
Imperialismo e nacionalismo
[editar | editar código]A expansão imperialista das últimas décadas do século XIX esteve estreitamente relacionada às transformações do nacionalismo europeu. A aquisição de territórios ultramarinos passou a ser associada, em diferentes países, ao prestígio internacional, à força militar e à posição de uma potência no sistema internacional. A posse de colônias podia ser apresentada como demonstração da grandeza nacional e como instrumento para ampliar a influência de um Estado perante seus rivais.[66][65]
Essa associação entre nacionalismo e imperialismo não foi uniforme. Os projetos imperiais eram defendidos por diferentes grupos sociais e políticos por razões distintas, que podiam incluir interesses econômicos, preocupações estratégicas, convicções religiosas, ideologias de superioridade racial e concepções de prestígio nacional. O imperialismo não constituiu, portanto, uma política determinada por um único interesse ou por uma única classe social.[66]
Na França, a expansão colonial adquiriu importância particular após a derrota diante da Prússia na Guerra Franco-Prussiana de 1870–1871. A perda da Alsácia-Lorena e a criação do Império Alemão contribuíram para uma profunda reorganização do equilíbrio político europeu. A expansão colonial francesa não pode ser explicada apenas como uma tentativa de compensar a derrota continental, mas o império ultramarino tornou-se também um elemento importante das concepções francesas de poder e prestígio internacional.[66]
Na Alemanha, a política colonial desenvolveu-se posteriormente à de França e Reino Unido. O governo de Otto von Bismarck inicialmente demonstrou cautela diante da expansão colonial, mas o Império Alemão adquiriu territórios na África e no Pacífico durante a década de 1880. Posteriormente, a política mundial associada ao Weltpolitik do imperador Guilherme II ampliou as ambições internacionais alemãs e contribuiu para a competição com outras potências.[66]
Na Itália, o imperialismo também esteve relacionado à construção da identidade nacional após a unificação. O novo Estado italiano procurou afirmar sua posição entre as grandes potências europeias e iniciou uma política colonial na África. A derrota italiana diante das forças de Menelik II na Batalha de Adwa, em 1896, representou um importante revés para essas ambições, mas não encerrou o projeto imperial italiano.[66]
No Reino Unido, a relação entre nacionalismo e império assumiu características diferentes. O Império Britânico já possuía uma estrutura territorial extensa antes da aceleração imperialista das últimas décadas do século XIX. A expansão posterior esteve associada à defesa das rotas comerciais, à segurança das comunicações imperiais, à competição internacional e a diferentes concepções de identidade nacional. A ideia de que a grandeza britânica estava vinculada ao império tornou-se particularmente importante na cultura política do período.[69]
O imperialismo também foi associado a discursos de superioridade racial. A utilização de interpretações simplificadas do evolucionismo, frequentemente agrupadas sob a expressão darwinismo social, contribuiu para a construção de hierarquias entre povos. Essas ideias foram mobilizadas para apresentar a expansão imperial como consequência de uma suposta superioridade biológica, cultural ou civilizacional das sociedades europeias.[63]
A linguagem da chamada missão civilizadora constituía outra forma de legitimação. Governos, missionários, intelectuais e organizações privadas podiam apresentar a expansão imperial como empreendimento destinado a difundir cristianismo, educação, ciência, medicina, comércio ou instituições consideradas modernas. Na prática, esses projetos coexistiam com formas de coerção, exploração econômica e violência colonial.[62]
O nacionalismo também desempenhou papel importante na mobilização da opinião pública. A imprensa, a literatura, os mapas, as exposições coloniais e os discursos políticos contribuíram para tornar os impérios objetos de representação e consumo cultural. A experiência colonial podia ser apresentada à população metropolitana como demonstração da força nacional, mesmo quando grande parte da sociedade não possuía contato direto com os territórios coloniais.[63]
Essa dimensão cultural não significa que a opinião pública tenha determinado automaticamente as políticas imperiais. Governos, grupos empresariais, militares, diplomatas, missionários e organizações coloniais possuíam interesses próprios e disputavam entre si os rumos da política externa. O nacionalismo fornecia uma linguagem capaz de legitimar diferentes projetos, mas não eliminava os conflitos existentes dentro das próprias sociedades imperiais.[66]
A competição imperial também contribuiu para modificar a percepção que as grandes potências tinham umas das outras. A expansão colonial produzia disputas territoriais e diplomáticas que, embora frequentemente resolvidas por negociação, aumentavam a importância estratégica das colônias, das rotas marítimas e das posições militares. Crises como a de Fachoda e as disputas relacionadas ao Marrocos demonstraram que conflitos coloniais podiam adquirir dimensão diretamente relacionada ao equilíbrio de poder europeu.[77]
As Crises do Marrocos de 1905 e 1911 constituíram exemplos particularmente importantes. A oposição alemã às pretensões francesas no Marrocos colocou em questão a distribuição de influência no Norte da África e produziu confrontos diplomáticos entre Alemanha, França e outras potências. As crises foram solucionadas sem guerra geral, mas contribuíram para aumentar a tensão entre os blocos diplomáticos europeus.[66]
A relação entre imperialismo e formação de alianças, contudo, deve ser tratada com cautela. As rivalidades coloniais não produziram automaticamente os sistemas de alianças que antecederam a Primeira Guerra Mundial. A política europeia era influenciada simultaneamente por questões continentais, disputas territoriais, equilíbrio de poder, nacionalismos, interesses estratégicos e problemas internos. O imperialismo constituía uma dessas dimensões, mas não pode ser isolado como causa única da crise internacional de 1914.[65]
A competição imperial também produziu formas de cooperação entre antigas potências rivais. A resolução de disputas coloniais entre França e Reino Unido contribuiu para a aproximação diplomática que culminou na Entente Cordiale de 1904. O episódio demonstra que a competição imperial podia tanto aprofundar rivalidades quanto estimular negociações destinadas a reorganizar as relações entre as potências.[77]
O nacionalismo imperial, portanto, apresentava uma dupla dimensão. Internamente, podia contribuir para legitimar a expansão territorial e reforçar sentimentos de orgulho nacional; internacionalmente, podia intensificar a competição entre Estados que procuravam demonstrar sua condição de grandes potências. Essa combinação tornou o imperialismo parte importante da cultura política e da diplomacia das décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Ao mesmo tempo, a expansão imperial estimulou respostas nacionalistas nos próprios territórios submetidos ao domínio estrangeiro. Intelectuais e movimentos políticos africanos e asiáticos passaram a questionar a legitimidade do domínio colonial e a formular diferentes projetos de autonomia, reforma ou independência. O nacionalismo, inicialmente utilizado pelas potências imperiais como linguagem de afirmação nacional, tornou-se também uma das principais linguagens políticas utilizadas contra o domínio imperial.[62]
Essa transformação foi particularmente importante na Ásia. A emergência do nacionalismo indiano, a oposição chinesa à interferência estrangeira e o desenvolvimento de movimentos nacionalistas em diferentes regiões do Sudeste Asiático demonstraram que a ordem imperial produzia também forças políticas capazes de contestá-la. O imperialismo não apenas reorganizou territórios e economias, mas contribuiu para produzir novas formas de identificação política entre as populações submetidas ao domínio colonial.[65]
O resultado foi uma ordem internacional paradoxal. De um lado, as potências europeias utilizavam o nacionalismo para justificar a expansão de seus próprios Estados e impérios; de outro, os povos submetidos à dominação imperial podiam apropriar-se das mesmas ideias de nacionalidade, soberania e autodeterminação para contestar a ordem colonial. Essa contradição tornar-se-ia cada vez mais importante durante o século XX.
Imperialismo e Primeira Guerra Mundial
[editar | editar código]A relação entre o imperialismo e a Primeira Guerra Mundial constitui um dos problemas centrais da historiografia sobre o período. A expansão imperial das últimas décadas do século XIX intensificou a competição entre as grandes potências, ampliou a importância estratégica de territórios ultramarinos e produziu sucessivas crises diplomáticas. Entretanto, a guerra de 1914 não pode ser explicada exclusivamente pela rivalidade colonial. As disputas imperiais estavam articuladas a conflitos continentais, nacionalismos, sistemas de alianças, corrida armamentista e, sobretudo, à instabilidade política dos Bálcãs.[65][103]
A expansão imperial contribuiu para a transformação do equilíbrio de poder internacional. A emergência da Alemanha como potência industrial e militar, a consolidação dos impérios britânico e francês, a expansão russa na Ásia e a ascensão dos Estados Unidos e do Japão modificaram a distribuição mundial de poder. A competição entre as grandes potências deixou de estar limitada ao continente europeu e passou a envolver rotas marítimas, mercados, territórios coloniais e posições estratégicas em diferentes regiões do mundo.[65]
A política externa alemã assumiu especial importância nesse contexto. Depois da saída de Otto von Bismarck da política imperial, em 1890, o governo alemão adotou uma política externa mais ambiciosa, posteriormente associada à Weltpolitik. A Alemanha procurou ampliar sua influência internacional e construir uma posição compatível com seu peso econômico e militar. Essa política incluiu a expansão naval e novas iniciativas coloniais, aumentando a percepção britânica de que o crescimento do poder alemão poderia ameaçar a posição britânica no sistema internacional.[104]
A construção da marinha alemã tornou-se um dos principais pontos de tensão com o Reino Unido. As leis navais promovidas pelo almirante Alfred von Tirpitz permitiram uma rápida expansão da frota alemã. A competição naval não foi causada exclusivamente por interesses coloniais, mas estava relacionada à concepção alemã de potência mundial e à preocupação britânica com a preservação de sua supremacia marítima.[105]
A rivalidade anglo-germânica, entretanto, não impediu a resolução de algumas disputas entre britânicos e franceses. A Entente Cordiale, estabelecida em 1904, solucionou questões coloniais pendentes entre os dois países, especialmente no Egito e no Marrocos. A aproximação contribuiu para reorganizar o equilíbrio diplomático europeu e foi posteriormente complementada pela convenção anglo-russa de 1907.[105]
As disputas coloniais contribuíram diretamente para duas importantes crises internacionais envolvendo o Marrocos. Na Crise de Tânger, em 1905, o imperador Guilherme II visitou Tânger e declarou apoio à independência e à soberania do sultão marroquino, desafiando a posição francesa. A crise foi resolvida diplomaticamente na Conferência de Algeciras, em 1906, mas evidenciou o grau de tensão entre Alemanha, França e seus respectivos aliados.[106]
Em 1911, uma nova crise surgiu quando a Alemanha enviou a canhoneira SMS Panther para Agadir, no Marrocos. O episódio ficou conhecido como Crise de Agadir e provocou forte reação britânica em apoio à França. Embora a crise tenha sido resolvida por negociação, ela reforçou a percepção de que a competição entre Alemanha, França e Reino Unido poderia produzir confrontos de alcance europeu a partir de disputas coloniais.[106]
Essas crises demonstram, contudo, a ambiguidade da relação entre imperialismo e guerra. Em 1905 e 1911, disputas coloniais produziram graves tensões, mas terminaram por meio de negociações. A existência de rivalidades imperiais não tornava inevitável uma guerra geral. Ao contrário, os episódios mostram a capacidade das grandes potências de utilizar a diplomacia para administrar conflitos e, em alguns casos, transformar disputas coloniais em acordos destinados a estabilizar suas relações.[106]
Ao mesmo tempo, a formação dos blocos diplomáticos europeus alterou as consequências potenciais de uma crise internacional. A aproximação entre França, Reino Unido e Rússia deu origem à chamada Tríplice Entente, enquanto Alemanha, Áustria-Hungria e Itália estavam associadas pela Tríplice Aliança. Os sistemas de alianças não determinavam automaticamente a ocorrência de uma guerra, mas aumentavam o risco de que uma crise localizada envolvesse várias potências.[107]
A situação era particularmente instável no sudeste da Europa. O enfraquecimento do Império Otomano, a expansão das nacionalidades balcânicas e a competição entre Império Austro-Húngaro e Império Russo produziram uma região marcada por disputas territoriais e conflitos políticos. A anexação austro-húngara da Bósnia e Herzegovina, em 1908, provocou uma grave crise internacional e agravou as relações entre Áustria-Hungria, Sérvia e Rússia.[108]
As Guerras Balcânicas de 1912 e 1913 aprofundaram essa instabilidade. A derrota do Império Otomano provocou uma reorganização territorial da região e fortaleceu a Sérvia. O crescimento da influência sérvia preocupava o governo austro-húngaro, que temia que o nacionalismo sérvio estimulasse movimentos entre as populações eslavas de seu próprio império. A Rússia, por sua vez, apoiava a Sérvia e procurava preservar sua influência nos Bálcãs.[109]
A crise decisiva ocorreu em junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria foi assassinado em Sarajevo por Gavrilo Princip, associado a círculos nacionalistas sérvios. O atentado desencadeou uma sequência de decisões políticas e militares que transformou uma crise austro-sérvia em uma guerra europeia. A Alemanha apoiou a Áustria-Hungria, enquanto a Rússia se posicionou em defesa da Sérvia. A mobilização russa levou a Alemanha a declarar guerra à Rússia e à França, e a invasão alemã da Bélgica provocou a entrada britânica no conflito.[110]
A sequência de acontecimentos de julho e agosto de 1914 demonstra por que a explicação da guerra exclusivamente em termos de imperialismo é insuficiente. A crise que iniciou o conflito não nasceu de uma disputa colonial, mas do nacionalismo balcânico, das relações entre Áustria-Hungria e Sérvia e da competição entre Rússia e Áustria-Hungria. A transformação dessa crise regional em guerra geral, entretanto, dependeu de estruturas de poder que haviam sido construídas ao longo das décadas anteriores, entre elas os sistemas de alianças e a rivalidade entre as grandes potências.[110]
O imperialismo também esteve presente na própria dimensão mundial da guerra. A entrada das potências coloniais no conflito mobilizou recursos humanos, econômicos e militares de seus impérios. Soldados provenientes da Índia, da África, do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia e de outras partes dos impérios britânico e francês participaram das operações. Tropas coloniais e forças provenientes dos domínios contribuíram para transformar o conflito europeu em uma guerra de alcance verdadeiramente mundial.[111]
Os territórios coloniais também se tornaram espaços de combate. Possessões alemãs na África e no Pacífico foram atacadas pelas forças dos Aliados, enquanto tropas britânicas, francesas, belgas, portuguesas e alemãs participaram de campanhas na África. No Oriente Médio, a derrota e posterior dissolução do Império Otomano provocaram uma reorganização territorial que teria consequências duradouras para a política internacional do século XX.[111]
A guerra produziu, portanto, uma relação de mão dupla entre imperialismo e conflito mundial. As rivalidades imperiais haviam contribuído para a formação da ordem internacional anterior a 1914, mas a guerra também alterou profundamente a estrutura dos impérios. A derrota das Potências Centrais provocou o desmantelamento dos impérios alemão, austro-húngaro e otomano, enquanto o sistema colonial britânico e francês alcançou sua maior extensão territorial no período imediatamente posterior ao conflito.[111]
O fim da guerra não significou, assim, o fim do imperialismo. Pelo contrário, a criação do sistema de mandatos da Liga das Nações transferiu antigas possessões alemãs e territórios do Império Otomano para a administração de potências vencedoras sob a justificativa de preparação para uma futura autonomia. O sistema procurava apresentar a administração imperial sob uma nova linguagem jurídica e internacional, mas preservava relações assimétricas de poder entre as potências mandatárias e os territórios submetidos aos mandatos.[62]
A experiência da Primeira Guerra Mundial também contribuiu para fortalecer movimentos anticoloniais. A mobilização de soldados e recursos das colônias, a circulação internacional de ideias políticas e a contradição entre os discursos de liberdade e autodeterminação e a permanência do domínio colonial estimularam novas formas de contestação. O período posterior a 1918 foi marcado pela expansão de movimentos nacionalistas na Ásia, no Oriente Médio e na África.[111]
A relação entre imperialismo e Primeira Guerra Mundial deve, portanto, ser compreendida como parte de um conjunto mais amplo de transformações da ordem internacional. O imperialismo intensificou a competição entre potências, forneceu importantes áreas de disputa diplomática e contribuiu para a construção de hierarquias globais; porém, a eclosão da guerra resultou da interação entre esses fatores e as rivalidades continentais, os nacionalismos, as alianças militares e as decisões tomadas durante a crise de 1914.[103][65]
Imperialismo no período entre guerras
[editar | editar código]A Primeira Guerra Mundial não encerrou o imperialismo. Embora a derrota dos Impérios Centrais tenha provocado o desaparecimento dos impérios alemão, austro-húngaro e otomano, as potências vencedoras preservaram extensos domínios coloniais. Ao mesmo tempo, a reorganização territorial do pós-guerra criou novas formas de administração imperial, especialmente por meio do sistema de mandatos da Liga das Nações. O período entre 1919 e 1939 foi, assim, marcado simultaneamente pela continuidade dos impérios coloniais e pelo crescimento de movimentos que questionavam sua legitimidade.[62][111]
O sistema de mandatos foi estabelecido pelo Tratado de Versalhes e pelo Pacto da Sociedade das Nações. Antigos territórios alemães e territórios árabes pertencentes ao Império Otomano foram colocados sob a administração de potências consideradas responsáveis por conduzi-los progressivamente a condições nas quais pudessem alcançar formas de autogoverno. A nova estrutura procurava apresentar a administração desses territórios como uma responsabilidade internacional, diferenciando-a juridicamente da colonização tradicional.[62]
Na prática, o sistema de mandatos manteve relações de poder profundamente assimétricas. Reino Unido e França receberam a administração da maior parte dos antigos territórios otomanos no Oriente Médio, enquanto territórios africanos e do Pacífico anteriormente controlados pela Alemanha foram distribuídos principalmente entre Reino Unido, França, Bélgica, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e Japão. A nova ordem internacional não significou, portanto, o desaparecimento da dominação imperial, mas sua reorganização sob uma nova linguagem jurídica.[62]
No Oriente Médio, a reorganização do antigo Império Otomano produziu novas estruturas territoriais e políticas. O Reino Unido recebeu os mandatos sobre Iraque, Palestina e Transjordânia, enquanto a França recebeu os mandatos sobre Síria e Líbano. A criação e consolidação dessas unidades políticas ocorreram em meio a disputas entre as potências mandatárias, movimentos nacionalistas locais e diferentes projetos políticos para a região.[62]
A permanência do domínio europeu estimulou o fortalecimento de movimentos nacionalistas nas sociedades colonizadas. A experiência da guerra, a circulação internacional de ideias políticas e a promessa de autodeterminação associada à nova ordem internacional contribuíram para ampliar as expectativas de autonomia. Entretanto, a aplicação seletiva desses princípios revelou uma contradição fundamental entre a linguagem universalista utilizada pelas potências vencedoras e a continuidade do domínio colonial.[111]
Na Índia, o movimento nacionalista ganhou força nas décadas posteriores à Primeira Guerra Mundial. O Congresso Nacional Indiano ampliou sua capacidade de mobilização sob a liderança de Mahatma Gandhi, utilizando campanhas de não cooperação, desobediência civil e boicote como instrumentos de contestação ao domínio britânico. A reivindicação de autonomia indiana tornou-se progressivamente uma das principais questões do império britânico.[112]
A crise do colonialismo também se manifestou na China. O Movimento de Quatro de Maio, iniciado em 1919, expressou a oposição à ordem internacional estabelecida após a guerra e à continuidade dos privilégios estrangeiros em território chinês. O movimento combinou nacionalismo, crítica à interferência estrangeira e renovação intelectual, contribuindo para a formação de novas correntes políticas no país.[111]
No mundo árabe, a reorganização territorial posterior à guerra também produziu conflitos com as potências mandatárias. As expectativas de independência associadas à derrota otomana entraram em tensão com os acordos e projetos britânicos e franceses para a região. Revoltas e movimentos nacionalistas demonstraram os limites da legitimidade do sistema de mandatos e contribuíram para a posterior transformação política do Oriente Médio.[62]
Na África, o período entre guerras também testemunhou o crescimento de movimentos políticos e culturais que questionavam o domínio colonial. Embora a maioria dos territórios permanecesse sob administração europeia, novas formas de organização política, sindical e intelectual começaram a desenvolver-se. A experiência colonial passou a ser contestada não apenas por revoltas locais, mas também por movimentos nacionalistas que articulavam reivindicações de cidadania, igualdade e autodeterminação.[62]
A crise econômica mundial iniciada em 1929 afetou profundamente as relações entre as metrópoles e seus territórios coloniais. A queda da demanda internacional por matérias-primas e a contração do comércio mundial atingiram economias coloniais fortemente dependentes da exportação de produtos primários. Ao mesmo tempo, as potências imperiais procuraram utilizar seus impérios como espaços econômicos privilegiados para proteger mercados e recursos durante a crise.[113]
A década de 1930 assistiu também ao fortalecimento de novos projetos imperialistas. No Japão, a expansão territorial passou a ocupar posição central na política externa. A ocupação da Manchúria em 1931 e a criação do Estado de Manchukuo em 1932 marcaram uma nova etapa da expansão japonesa no continente asiático. Em 1937, o conflito entre Japão e China transformou-se em guerra aberta em larga escala.[114]
A expansão japonesa foi acompanhada por uma ideologia que apresentava o Japão como liderança de uma ordem asiática alternativa à dominação das potências ocidentais. A ideia de uma esfera de coprosperidade asiática seria posteriormente utilizada para justificar a expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico. Na prática, a expansão envolveu conquista territorial, ocupação militar e exploração dos territórios submetidos ao Japão.[114]
A Itália fascista também retomou e ampliou projetos imperiais. Em 1935, o governo de Benito Mussolini iniciou a invasão da Etiópia, então um dos poucos Estados africanos que haviam preservado sua independência formal durante a Partilha de África. A conquista italiana ocorreu apesar da condenação internacional e da aplicação de sanções pela Liga das Nações. Em 1936, a Itália proclamou a criação do Império Italiano.[81]
A invasão da Etiópia demonstrou as limitações da segurança coletiva estabelecida após a Primeira Guerra Mundial. A incapacidade da Liga das Nações de impedir a conquista italiana enfraqueceu sua autoridade e mostrou que as potências europeias estavam dispostas a subordinar os princípios da ordem internacional a seus interesses estratégicos. A crise também contribuiu para aproximar a Itália da Alemanha nazista.[115]
O expansionismo da Alemanha nazista apresentou características diferentes do colonialismo ultramarino tradicional. A política externa do regime de Adolf Hitler estava centrada sobretudo na expansão territorial na Europa, particularmente em direção ao leste. A noção de Lebensraum, ou "espaço vital", combinava expansionismo territorial, racismo biológico, anticomunismo e projetos de reorganização radical da população e do espaço europeu.[116]
A expansão alemã não se limitou, portanto, à recuperação das colônias perdidas após 1919. O projeto nazista procurava estabelecer uma ordem imperial continental na Europa Oriental. A conquista seria acompanhada pela subordinação ou expulsão de populações consideradas racialmente inferiores, pela exploração econômica dos territórios ocupados e pela colonização de áreas destinadas à população alemã.[116]
Essa dimensão distingue o imperialismo nazista de muitas formas anteriores de colonialismo europeu, embora existam importantes continuidades entre as práticas coloniais e a violência expansionista alemã. A experiência colonial alemã na África, especialmente a repressão aos hereros e namaquas, foi posteriormente objeto de debates historiográficos sobre possíveis continuidades entre violência colonial, racismo e práticas de extermínio desenvolvidas no século XX.[83]
A expansão das potências autoritárias durante a década de 1930 contribuiu para a crise da ordem internacional estabelecida após 1918. A ocupação japonesa da Manchúria, a invasão italiana da Etiópia, a expansão alemã na Europa e a incapacidade das instituições internacionais de impedir essas ações demonstraram os limites do sistema de segurança coletiva. A crise do sistema internacional ocorreu simultaneamente ao enfraquecimento das democracias liberais e à radicalização dos nacionalismos.[115]
A relação entre imperialismo e fascismo, entretanto, não deve ser reduzida a uma simples continuidade. Os regimes fascistas desenvolveram projetos imperiais próprios, combinando nacionalismo extremo, militarismo, racismo e mobilização política de massas. A expansão territorial era apresentada não apenas como busca por mercados ou matérias-primas, mas como instrumento de regeneração nacional e construção de uma nova ordem política.[116]
O período entre guerras também revelou uma transformação importante na própria linguagem do imperialismo. A dominação colonial passou progressivamente a ser questionada por princípios de autodeterminação e soberania nacional. Entretanto, esses princípios eram aplicados de maneira desigual. As potências europeias continuavam a considerar legítima sua autoridade sobre vastos territórios da África e da Ásia, enquanto condenavam as conquistas realizadas por outras potências.[62]
A contradição entre a permanência dos impérios coloniais e a expansão dos movimentos anticoloniais tornou-se uma das características fundamentais do período. O colonialismo europeu alcançou grande extensão territorial, mas sua legitimidade política e moral começou a ser contestada de maneira crescente. A Segunda Guerra Mundial aprofundaria essa contradição e produziria condições decisivas para a crise dos impérios coloniais.[111]
Ao final da década de 1930, portanto, o imperialismo apresentava formas diversas. Os antigos impérios coloniais britânico, francês, neerlandês e português permaneciam extensos; o sistema de mandatos mantinha sob controle europeu antigos territórios alemães e otomanos; o Japão construía um império na Ásia Oriental; a Itália buscava um império africano; e a Alemanha nazista desenvolvia um projeto de expansão territorial e colonização no continente europeu. Essas experiências não eram idênticas, mas compartilhavam a existência de relações hierárquicas de poder e de projetos de expansão territorial, econômica ou política.[62][116]
Imperialismo e Segunda Guerra Mundial
[editar | editar código]A Segunda Guerra Mundial aprofundou a crise da ordem imperial construída durante o século XIX e o período entre guerras. O conflito foi acompanhado por novos projetos de expansão territorial e por diferentes formas de ocupação e exploração de territórios conquistados. Ao mesmo tempo, a mobilização de populações coloniais e a experiência da guerra contribuíram para enfraquecer a legitimidade política dos impérios europeus e fortalecer movimentos de emancipação nacional na Ásia, na África e no Oriente Médio.[117][62]
O expansionismo das potências do Eixo constituiu uma das principais dimensões imperiais do conflito. O Japão procurou estabelecer uma ordem política e econômica sob sua liderança no Leste e no Sudeste Asiático; a Itália fascista tentou consolidar seu domínio sobre a Etiópia e ampliar sua presença no Mediterrâneo e na África; e a Alemanha nazista desenvolveu um projeto de expansão territorial no Leste Europeu. Embora esses projetos fossem diferentes entre si, todos associavam expansão territorial, mobilização nacional e estabelecimento de relações hierárquicas de poder.[116]
O projeto japonês assumiu particular importância na Ásia. A expansão iniciada com a ocupação da Manchúria em 1931 e ampliada durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, iniciada em 1937, alcançou uma dimensão muito maior a partir de 1941. O Japão ocupou extensas áreas da China e, após o ataque a Pearl Harbor, conquistou rapidamente territórios britânicos, neerlandeses, franceses e norte-americanos no Sudeste Asiático e no Pacífico.[114]
A propaganda japonesa apresentou essa expansão como construção de uma Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. A linguagem oficial afirmava que o Japão pretendia libertar os povos asiáticos do colonialismo ocidental e estabelecer uma ordem regional baseada na cooperação entre os povos asiáticos. Na prática, os territórios ocupados foram submetidos à autoridade militar japonesa e suas economias e recursos foram mobilizados para sustentar o esforço de guerra japonês.[114]
A ocupação japonesa teve efeitos contraditórios sobre os movimentos nacionalistas asiáticos. Em alguns territórios, a derrota das potências coloniais europeias demonstrou que seus impérios não eram militarmente invulneráveis. Ao mesmo tempo, a violência da ocupação japonesa e a exploração econômica produziram resistência e limitaram a legitimidade do projeto japonês. Após a guerra, entretanto, a experiência de ruptura do domínio europeu contribuiu em diferentes regiões para a aceleração das reivindicações de independência.[118]
Na China, a guerra contra o Japão provocou enorme destruição e deslocamentos populacionais. A ocupação japonesa foi acompanhada por massacres, exploração econômica e violência contra a população civil. A resistência chinesa também contribuiu para fortalecer o nacionalismo e consolidar a percepção de que a defesa da soberania nacional estava diretamente relacionada à luta contra a dominação estrangeira.[118]
No Sudeste Asiático, a ocupação japonesa desorganizou as estruturas coloniais construídas por britânicos, franceses e neerlandeses. A retirada ou derrota das administrações europeias abriu espaço para diferentes organizações políticas locais, algumas das quais colaboraram temporariamente com os japoneses, enquanto outras organizaram movimentos de resistência. A experiência alterou profundamente as condições políticas nas quais os antigos impérios europeus tentariam restabelecer seu domínio depois de 1945.[118]
Na Índia britânica, a guerra também intensificou as contradições do domínio colonial. O Congresso Nacional Indiano recusou a participação automática da Índia no esforço de guerra britânico sem um compromisso claro com a autonomia. Em 1942, o movimento Quit India exigiu o fim do domínio britânico, enquanto Subhas Chandra Bose procurou obter apoio japonês para combater o Reino Unido. A Índia permaneceu, contudo, uma importante base militar e econômica dos Aliados durante o conflito.[119]
A guerra também mobilizou enormes contingentes provenientes dos impérios britânico e francês. Soldados africanos, indianos, árabes, caribenhos e de outras regiões participaram das forças aliadas. A experiência militar e a circulação de pessoas durante o conflito contribuíram para ampliar a consciência política e as expectativas de cidadania e autonomia entre populações coloniais.[118]
A participação colonial no esforço de guerra produziu uma contradição semelhante àquela observada durante a Primeira Guerra Mundial. As potências europeias apresentavam o conflito como uma luta contra agressão, autoritarismo e conquista territorial, mas continuavam a manter vastos territórios sob domínio colonial. A tensão entre os princípios políticos utilizados para justificar a guerra e a continuidade da ordem imperial tornou-se cada vez mais difícil de sustentar no pós-guerra.[62]
Na África, o continente tornou-se novamente palco de importantes operações militares. A campanha no Norte da África envolveu forças britânicas, francesas, italianas, alemãs e de outros países, enquanto diferentes territórios africanos foram mobilizados econômica e militarmente pelos impérios coloniais. A guerra ampliou a importância estratégica do continente e submeteu suas economias a uma mobilização sem precedentes.[118]
A derrota italiana na Etiópia em 1941 permitiu a restauração do governo de Haile Selassie e representou o fim do projeto imperial italiano naquele território. O episódio possuía forte significado simbólico porque a Etiópia havia sido um dos principais exemplos de resistência africana à conquista europeia e sua ocupação italiana havia demonstrado, na década anterior, os limites do sistema de segurança coletiva.[81]
O projeto imperial alemão apresentava uma dimensão diferente. A expansão nazista estava concentrada na Europa e era fundamentada na ideia de conquista de Lebensraum no Leste. Os territórios ocupados deveriam fornecer alimentos, matérias-primas e mão de obra para o Reich, enquanto populações consideradas racialmente inferiores seriam submetidas a deslocamento, escravização ou extermínio.[116]
A ocupação alemã da Europa Oriental esteve diretamente relacionada ao projeto racial do nazismo. A Polônia e os territórios soviéticos ocupados foram submetidos a políticas de exploração econômica, deportação, trabalho forçado e assassinato em massa. O projeto de reorganização territorial alemão não correspondia simplesmente à conquista militar convencional, mas procurava transformar radicalmente a composição demográfica e econômica dos territórios conquistados.[116]
A relação entre colonialismo europeu e expansionismo nazista tornou-se objeto de amplo debate historiográfico. Alguns estudos destacam continuidades entre práticas coloniais, racismo e violência de conquista; outros ressaltam diferenças fundamentais entre os sistemas coloniais ultramarinos e o projeto nazista de reorganização racial da Europa. A comparação é, portanto, útil quando preserva as especificidades históricas de cada experiência.[83]
A guerra também alterou profundamente a posição internacional das antigas potências imperiais. A França foi ocupada pela Alemanha em 1940 e posteriormente dividida entre diferentes estruturas de poder, enquanto o Reino Unido saiu da guerra formalmente vitorioso, mas economicamente enfraquecido. A manutenção de extensos impérios tornou-se progressivamente mais difícil diante dos custos econômicos da guerra e da emergência de novas potências mundiais, sobretudo Estados Unidos e União Soviética.[62]
Os Estados Unidos ocupavam uma posição ambígua diante do sistema imperial. A política norte-americana criticava determinados aspectos dos impérios coloniais europeus e defendia princípios de autodeterminação em determinados contextos, mas não rejeitava necessariamente todas as formas de influência econômica e estratégica sobre outras regiões. A própria posição norte-americana diante da descolonização foi marcada por interesses econômicos, estratégicos e geopolíticos que variaram conforme a região e o momento.[62]
A Carta do Atlântico, de 1941, tornou-se posteriormente uma referência importante nos debates sobre autodeterminação. O documento afirmava princípios relacionados ao direito dos povos de escolherem a forma de governo sob a qual desejavam viver. Entretanto, a interpretação desses princípios no contexto colonial permaneceu controversa, e as potências imperiais não aceitaram automaticamente sua aplicação como fundamento para a independência das colônias.[62]
A criação da Organização das Nações Unidas em 1945 introduziu uma nova linguagem internacional baseada na soberania dos Estados, na igualdade jurídica entre os membros e no princípio da autodeterminação. A ordem internacional do pós-guerra não eliminou imediatamente o colonialismo, mas criou instrumentos jurídicos e políticos que seriam posteriormente utilizados pelos movimentos anticoloniais para contestar a legitimidade da dominação imperial.[62]
A Segunda Guerra Mundial não produziu, por si só, a descolonização. Movimentos nacionalistas já existiam antes de 1939 e possuíam trajetórias próprias. A guerra, entretanto, modificou radicalmente as condições internacionais nas quais esses movimentos atuavam. O enfraquecimento econômico e militar das potências europeias, a emergência de Estados Unidos e União Soviética como superpotências, a expansão do princípio da autodeterminação e a experiência de mobilização das populações coloniais contribuíram para acelerar a crise dos impérios.[62][118]
A guerra marcou, assim, uma inflexão decisiva na história do imperialismo. Os impérios coloniais não desapareceram em 1945, mas sua legitimidade e sua capacidade de reprodução haviam sido profundamente afetadas. Nas décadas seguintes, a independência da Índia e do Paquistão, a transformação política do Sudeste Asiático, a crise dos impérios francês e britânico e a onda de independências africanas modificariam radicalmente a estrutura política do sistema internacional.[62]
A crise dos impérios após 1945 não significou, contudo, o desaparecimento das relações assimétricas entre antigas metrópoles e territórios recém-independentes. A descolonização política foi acompanhada pela permanência de vínculos econômicos, militares, culturais e diplomáticos. A análise dessas continuidades daria origem, posteriormente, a conceitos como neocolonialismo, dependência e imperialismo informal, que procurariam explicar formas de poder internacional posteriores ao fim dos impérios coloniais formais.[120][52]
Descolonização e crise dos impérios
[editar | editar código]A descolonização constituiu um dos principais processos de transformação da ordem internacional no século XX. Entre o final da Segunda Guerra Mundial e as décadas de 1960 e 1970, a maior parte dos territórios coloniais da Ásia e da África alcançou a independência política. O processo, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme. Em diferentes regiões, a independência resultou de negociações políticas, mobilização nacionalista, guerras de libertação, revoluções ou combinações desses fatores.[62][117]
A crise dos impérios coloniais começou antes de 1945. Os movimentos nacionalistas haviam se desenvolvido durante as primeiras décadas do século XX, e a Primeira Guerra Mundial já havia colocado em questão a legitimidade das estruturas imperiais. A Segunda Guerra Mundial, porém, alterou profundamente as condições econômicas, militares e diplomáticas que sustentavam os impérios europeus. Reino Unido, França, Países Baixos, Bélgica e Portugal encontraram dificuldades crescentes para preservar estruturas coloniais diante da emergência de novos centros de poder e da mobilização política das populações submetidas ao domínio colonial.[62]
A independência da Índia e do Paquistão, em 1947, foi um dos acontecimentos mais importantes dessa transformação. O movimento nacionalista indiano, articulado principalmente em torno do Congresso Nacional Indiano, havia desenvolvido diferentes estratégias de oposição ao domínio britânico. A mobilização liderada por Mahatma Gandhi combinou campanhas de não cooperação e desobediência civil com a construção de uma ampla organização política nacional. Ao lado do Congresso, a Liga Muçulmana reivindicou a criação de um Estado separado para os muçulmanos do subcontinente.[121]
A independência foi acompanhada pela Partição da Índia, que resultou na criação dos Estados da Índia e do Paquistão. A divisão territorial provocou deslocamentos populacionais em massa e violência comunitária, demonstrando que o fim do domínio colonial não significava necessariamente a resolução dos conflitos políticos e sociais produzidos ou agravados durante o período imperial. A formação dos novos Estados ocorreu simultaneamente à reorganização das relações entre nacionalismo, religião, território e soberania.[119]
No Sudeste Asiático, a descolonização assumiu trajetórias distintas. A Indonésia proclamou sua independência em 1945, após a derrota japonesa, mas os Países Baixos tentaram restabelecer seu domínio. A guerra e as negociações internacionais conduziram ao reconhecimento da soberania indonésia em 1949. O episódio demonstrou que as antigas potências coloniais não aceitariam necessariamente de forma imediata a perda de seus territórios e que a descolonização podia envolver conflitos militares prolongados.[122]
Na Indochina Francesa, a independência esteve ligada à luta conduzida pelo Viet Minh contra o domínio francês. A derrota francesa na Batalha de Điện Biên Phủ, em 1954, contribuiu para o fim da presença colonial francesa na região. Os Acordos de Genebra de 1954 reconheceram a independência do Vietnã, do Laos e do Camboja, embora a divisão provisória do Vietnã e a posterior intervenção das grandes potências transformassem a região em um dos principais cenários da Guerra Fria.[123]
A descolonização do Oriente Médio também esteve diretamente relacionada à crise dos sistemas de mandato estabelecidos depois da Primeira Guerra Mundial. Iraque, Síria, Líbano e Transjordânia alcançaram diferentes formas de independência durante as décadas de 1930 e 1940, embora a presença militar e econômica das antigas potências coloniais permanecesse significativa. A retirada formal da administração imperial não eliminou imediatamente a influência britânica e francesa na região.[62]
A criação do Estado de Israel em 1948 e a guerra subsequente estiveram relacionadas à crise do Mandato Britânico da Palestina e à disputa entre diferentes projetos nacionais. A questão palestina tornou-se posteriormente um dos principais conflitos internacionais do Oriente Médio. Sua formação esteve ligada simultaneamente ao colonialismo britânico, ao sionismo, ao nacionalismo árabe, à perseguição dos judeus na Europa e às transformações produzidas pela Segunda Guerra Mundial.[62]
Na África, a descolonização ocorreu principalmente a partir da década de 1950. O processo foi acelerado pela expansão de movimentos nacionalistas, pela transformação do sistema internacional e pela crescente dificuldade das potências europeias em justificar politicamente a manutenção de seus impérios. Em alguns territórios, as metrópoles aceitaram negociar a transferência de poder; em outros, recorreram à repressão e à guerra.[124]
A Costa do Ouro, posteriormente Gana, tornou-se um dos primeiros territórios da África subsaariana sob domínio britânico a alcançar a independência, em 1957. Sob a liderança de Kwame Nkrumah, o movimento nacionalista ganês articulou a independência política a um projeto mais amplo de unidade africana e transformação econômica. A independência de Gana tornou-se referência para movimentos nacionalistas em outras partes do continente.[124]
O processo de independência africano intensificou-se no início da década de 1960. Em 1960, diversos territórios africanos alcançaram a independência, levando o ano a ser posteriormente associado à chamada Ano da África. A multiplicação de novos Estados alterou profundamente a composição da Organização das Nações Unidas e transformou as questões coloniais em tema central da diplomacia internacional.[124]
A independência, entretanto, não eliminou imediatamente as estruturas econômicas herdadas do colonialismo. Muitas economias recém-independentes permaneciam fortemente dependentes da exportação de poucos produtos primários e da importação de bens industrializados. A concentração da produção em atividades voltadas para os mercados externos havia sido uma característica frequente das economias coloniais e dificultava a construção de estruturas econômicas diversificadas após a independência.[52][124]
Essa continuidade econômica tornou-se uma das bases das teorias da dependência, desenvolvidas sobretudo na América Latina a partir das décadas de 1960 e 1970. Autores vinculados a diferentes correntes dependentistas argumentaram que a independência política não significava necessariamente autonomia econômica e que as relações entre países centrais e periféricos continuavam a reproduzir formas estruturais de desigualdade.[52]
A descolonização francesa foi marcada por diferentes experiências. Em alguns territórios, a transferência de poder ocorreu relativamente de forma negociada; em outros, a independência foi precedida por guerras prolongadas. A Guerra da Argélia (1954–1962) constituiu um dos conflitos mais violentos do processo de descolonização e revelou a dificuldade da França em abandonar um território que era juridicamente integrado ao Estado francês, mas cuja população muçulmana permanecia submetida a profundas desigualdades políticas e sociais.[123]
A Guerra da Argélia também teve consequências políticas para a própria França. A crise contribuiu para o colapso da Quarta República Francesa e para o retorno de Charles de Gaulle ao poder em 1958. A independência argelina, alcançada em 1962, demonstrou que a preservação militar de um império podia produzir custos políticos e econômicos significativos para a própria metrópole.[123]
No Congo Belga, a independência em 1960 foi seguida por uma grave crise política e militar. A intervenção estrangeira, a secessão de Catanga, a atuação das Nações Unidas e o assassinato de Patrice Lumumba transformaram o país em um dos principais cenários da disputa internacional da Guerra Fria. O episódio tornou evidente que a independência formal não garantia o controle efetivo dos recursos, das instituições e das decisões estratégicas de um novo Estado.[123]
A descolonização portuguesa ocorreu mais tarde que a da maioria dos demais impérios europeus. O regime do Estado Novo manteve a soberania portuguesa sobre Angola, Moçambique, Guiné Portuguesa, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, além de outros territórios. A partir da década de 1960, movimentos de libertação iniciaram guerras contra o domínio português em Angola, Guiné e Moçambique.[125]
A Revolução dos Cravos, em 1974, provocou uma mudança decisiva na política colonial portuguesa. O novo governo iniciou o processo de descolonização que levou à independência de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A retirada portuguesa encerrou o último grande ciclo de colonialismo europeu formal na África.[125]
A descolonização também produziu novas formas de solidariedade internacional entre os países recém-independentes. A Conferência de Bandung, realizada em 1955, reuniu Estados asiáticos e africanos e expressou a busca de uma política internacional que não estivesse subordinada aos interesses das grandes potências. O encontro tornou-se um marco do chamado Terceiro Mundo e da articulação entre anticolonialismo, soberania nacional e cooperação internacional.[124]
A criação do Movimento dos Países Não Alinhados ampliou essa tentativa de construção de uma política internacional autônoma. Os países participantes procuravam evitar a subordinação direta aos blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, embora suas posições concretas variassem significativamente. O não alinhamento combinava, em diferentes graus, defesa da soberania nacional, oposição ao colonialismo, crítica às desigualdades econômicas internacionais e reivindicação de maior autonomia política.[124]
A Organização das Nações Unidas desempenhou papel importante nesse processo. A entrada de numerosos Estados africanos e asiáticos modificou o equilíbrio político da organização e fortaleceu as iniciativas contra o colonialismo. Em 1960, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 1514, que declarou a necessidade de pôr fim ao colonialismo e reconheceu o direito dos povos à autodeterminação.[124]
A descolonização alterou, portanto, a estrutura formal do sistema internacional. O número de Estados soberanos aumentou significativamente, enquanto os impérios territoriais europeus foram progressivamente desmantelados. Entretanto, a soberania jurídica dos novos Estados coexistiu com relações econômicas, militares e diplomáticas assimétricas. A transferência do poder político não significou necessariamente a eliminação das estruturas de dependência construídas durante o período colonial.[52][124]
Essa distinção entre independência política e autonomia efetiva tornou-se central para interpretações posteriores do imperialismo. A partir das décadas de 1950 e 1960, autores como Kwame Nkrumah passaram a utilizar o conceito de neocolonialismo para descrever situações em que um Estado formalmente independente permanecia submetido a formas de influência econômica, política ou militar exercidas por potências estrangeiras.[120]
O conceito de neocolonialismo ampliou o campo de análise do imperialismo. Em vez de restringi-lo à conquista territorial e à administração colonial direta, passou a considerar mecanismos de influência exercidos por meio de investimentos, comércio, crédito, empresas transnacionais, assistência militar, alianças políticas e instituições internacionais. A interpretação desses mecanismos, contudo, tornou-se objeto de intenso debate entre diferentes correntes da economia política e das ciências sociais.[120][52]
A descolonização representou, assim, simultaneamente o fim de uma forma histórica de imperialismo e a transformação das condições nas quais relações de poder internacional continuaram a existir. O desaparecimento dos impérios coloniais formais não encerrou o debate sobre o imperialismo, mas deslocou parte de sua análise para questões como dependência econômica, hegemonia, intervenção militar, empresas transnacionais e desigualdade estrutural no sistema internacional.
Imperialismo após a descolonização
[editar | editar código]O fim dos impérios coloniais formais não eliminou as relações assimétricas de poder entre Estados. A partir da segunda metade do século XX, o debate sobre o imperialismo passou a considerar formas de influência que não dependiam necessariamente da ocupação territorial ou da administração colonial direta. Entre os fenômenos analisados estavam a dependência econômica, a intervenção militar, a influência diplomática, o controle de recursos estratégicos e a atuação internacional de grandes empresas.[120][52]
Essa transformação esteve relacionada à própria estrutura do sistema internacional do pós-guerra. A emergência dos Estados Unidos e da União Soviética como superpotências modificou a distribuição mundial de poder, enquanto a multiplicação dos Estados independentes tornou a soberania nacional um princípio central da ordem internacional. O imperialismo deixou, assim, de ser predominantemente identificado com a expansão territorial das potências europeias e passou a ser discutido também em termos de hegemonia, influência e dependência.[126]
O conceito de neocolonialismo foi uma das primeiras formulações sistemáticas dessa transformação. Em Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism, publicado em 1965, Kwame Nkrumah argumentou que a independência política dos novos Estados africanos podia coexistir com formas de dependência econômica e política em relação às antigas potências coloniais e a outras grandes potências. Para Nkrumah, a ausência de administração colonial direta não impedia a existência de relações de dominação.[120]
A formulação de Nkrumah deslocava, portanto, o problema do imperialismo da questão do controle territorial para a questão do controle efetivo. Um Estado poderia possuir soberania jurídica e, simultaneamente, ter sua capacidade de formular políticas econômicas ou externas limitada por relações de dependência. O conceito foi utilizado sobretudo no contexto africano e terceiro-mundista, mas tornou-se posteriormente parte mais ampla do vocabulário crítico sobre as relações internacionais.[120]
Na América Latina, o debate assumiu características próprias. A teoria da dependência procurou explicar por que a independência política dos Estados latino-americanos não havia produzido convergência econômica com os países industrializados. Diferentes autores dependentistas enfatizaram, de maneiras distintas, a inserção subordinada das economias latino-americanas na economia mundial e as relações entre estruturas internas de classe e condicionantes internacionais.[52]
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, em particular, rejeitaram explicações que tratassem a dependência como simples imposição externa. Em sua análise, as relações entre países centrais e periféricos articulavam-se às estruturas sociais e políticas existentes dentro dos próprios países dependentes. A dependência deveria ser compreendida como uma relação histórica, na qual fatores externos e internos se condicionavam reciprocamente.[52]
Outras correntes da teoria da dependência adotaram posições mais estruturalistas ou marxistas. Autores como Ruy Mauro Marini interpretaram o desenvolvimento latino-americano a partir da posição subordinada da região na economia capitalista mundial e desenvolveram o conceito de superexploração do trabalho. Essas interpretações deslocaram a discussão do imperialismo para as relações entre acumulação capitalista, divisão internacional do trabalho e desigualdade entre países.[127]
A noção de imperialismo informal também ganhou importância para descrever situações nas quais uma grande potência exerce influência sobre outro Estado sem estabelecer administração colonial direta. A influência pode envolver comércio, crédito, investimentos, tratados, pressão diplomática ou presença militar. O conceito permite analisar relações de poder nas quais a soberania formal permanece intacta, mas a capacidade de decisão de Estados mais fracos é condicionada por estruturas externas.[16]
A historiografia sobre o Império Britânico contribuiu particularmente para a formulação desse conceito. John Gallagher e Ronald Robinson argumentaram que a expansão britânica no século XIX não poderia ser explicada apenas pela anexação formal de territórios. A influência britânica também foi construída por meio de formas de controle informal, especialmente em regiões nas quais a manutenção de governos locais era considerada compatível com os interesses britânicos.[16]
Essa perspectiva modificou a interpretação tradicional da expansão imperial. O império deixou de ser entendido exclusivamente como um conjunto de territórios juridicamente anexados e passou a ser analisado também como uma rede variável de relações políticas e econômicas. A distinção entre império formal e influência informal permitiu explicar por que determinadas potências exerciam grande poder sobre regiões que não estavam juridicamente incorporadas a seus territórios.[16]
A Guerra Fria introduziu outra dimensão no problema. Estados Unidos e União Soviética apresentavam seus respectivos projetos internacionais como alternativas ideológicas ao colonialismo tradicional, mas ambas as superpotências desenvolveram formas de influência política, econômica e militar sobre outros Estados. Intervenções, alianças militares, assistência econômica e apoio a governos ou movimentos políticos tornaram-se instrumentos fundamentais da competição global.[128]
A intervenção estrangeira em países formalmente independentes tornou-se particularmente controversa. Os Estados Unidos participaram direta ou indiretamente de processos políticos na América Latina, no Oriente Médio, na Ásia e em outras regiões, enquanto a União Soviética exerceu influência sobre Estados aliados e interveio militarmente em determinados conflitos. A interpretação dessas ações como formas de imperialismo depende, contudo, da definição adotada e constitui objeto de debate historiográfico.[128]
A relação entre imperialismo e Guerra Fria não deve, portanto, ser reduzida à simples substituição dos impérios europeus por duas novas superpotências. Os processos de descolonização possuíam dinâmica própria, e os Estados recém-independentes procuraram frequentemente preservar autonomia diante dos dois blocos. O Movimento dos Países Não Alinhados constituiu uma das principais expressões dessa tentativa de construir uma política internacional independente.[128]
A expansão das empresas multinacionais também passou a ocupar lugar central no debate sobre o imperialismo. O crescimento de grandes empresas com capacidade de operar simultaneamente em diversos países alterou as formas de circulação internacional de capital e de controle de recursos produtivos. Para algumas correntes críticas, essas empresas constituíam instrumentos de reprodução da dependência; outras interpretações enfatizaram sua inserção em processos mais amplos de internacionalização econômica.[120]
A partir da década de 1970, as transformações do sistema monetário internacional, a crise do petróleo, a expansão das finanças internacionais e o aumento da circulação transnacional de capitais modificaram novamente as formas de poder econômico internacional. O debate sobre o imperialismo passou progressivamente a incorporar questões relativas à dívida externa, às instituições financeiras internacionais e à reorganização da economia mundial.[129]
A expansão da economia mundial nas últimas décadas do século XX também estimulou novas interpretações sobre a relação entre capitalismo e poder internacional. Alguns autores passaram a utilizar o conceito de globalização para descrever a crescente integração dos mercados, das finanças, da produção e das comunicações. Outros argumentaram que a globalização não eliminava as hierarquias internacionais, mas podia reorganizá-las sob novas formas.[129]
Nesse contexto, David Harvey desenvolveu uma interpretação do imperialismo baseada na articulação entre processos econômicos e estratégias territoriais. Em sua formulação, o imperialismo envolve a relação entre a lógica da acumulação de capital e a lógica territorial do poder político. A expansão do capital e a ação dos Estados não são idênticas, mas interagem na produção de estruturas espaciais de poder.[129]
A chamada acumulação por espoliação, conceito desenvolvido por Harvey a partir de uma releitura de Karl Marx, procura identificar mecanismos pelos quais processos de privatização, apropriação de recursos, mercantilização e deslocamento de populações podem funcionar como instrumentos de expansão capitalista. A utilização do conceito ampliou o debate sobre imperialismo para além da conquista territorial e das relações interestatais tradicionais.[130]
A expansão do poder econômico transnacional não eliminou, entretanto, a importância dos Estados. A economia mundial continua organizada em torno de unidades políticas soberanas que controlam territórios, legislações, forças armadas e instituições. O poder econômico internacional resulta, assim, da interação entre Estados, empresas, instituições multilaterais e diferentes atores sociais, e não pode ser reduzido exclusivamente à ação de qualquer um desses agentes.[129]
No século XXI, o termo imperialismo passou a ser empregado para interpretar fenômenos diversos, como intervenções militares, sanções econômicas, dependência financeira, controle de recursos naturais, relações comerciais assimétricas e projeção de poder por grandes potências. A amplitude dessas utilizações tornou o conceito objeto de controvérsia. Nem toda desigualdade internacional é necessariamente imperialista, e a identificação de uma relação imperial exige considerar os mecanismos concretos pelos quais o poder é exercido.[129]
A discussão contemporânea também recuperou o problema da continuidade entre colonialismo e formas posteriores de dominação. Estudos sobre colonialidade argumentaram que o fim do colonialismo formal não eliminou necessariamente hierarquias sociais, raciais, econômicas e epistemológicas produzidas durante a expansão colonial. Essa abordagem deslocou parte do debate para além das relações entre Estados e passou a examinar os efeitos duradouros das estruturas coloniais nas sociedades contemporâneas.[131]
A perspectiva da colonialidade, contudo, constitui uma abordagem teórica específica e não deve ser apresentada como consenso historiográfico sobre a natureza do imperialismo contemporâneo. Sua contribuição está sobretudo em chamar atenção para a persistência de hierarquias construídas historicamente pelo colonialismo, inclusive depois da independência formal dos territórios colonizados.[131]
O conceito de imperialismo, portanto, passou por sucessivos deslocamentos ao longo do século XX. Inicialmente associado sobretudo à expansão territorial e colonial das grandes potências, passou a abranger, em diferentes tradições teóricas, relações de dependência econômica, influência informal, hegemonia política, intervenção militar e estruturas globais de poder. Essas ampliações não constituem uma definição única, mas refletem diferentes interpretações sobre a continuidade ou transformação das relações de dominação no sistema internacional.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Koebner & Schmidt 1964.
- 1 2 3 Hobson 1902.
- ↑ Lenin 1916.
- ↑ Schumpeter 1955.
- ↑ Gallagher & Robinson 1953.
- ↑ Bayly 1989.
- ↑ Burbank & Cooper 2010.
- ↑ Frank 1966.
- ↑ Cardoso & Faletto 1970.
- ↑ Amin 1974.
- ↑ Wallerstein 1974.
- ↑ Koebner & Schmidt 1964, p. 280-300.
- 1 2 3 4 Fieldhouse 1973, p. 1-12.
- ↑ Hobson 1902, p. 76-116.
- ↑ Lenin 1917, p. 265-298.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Gallagher & Robinson 1953, p. 1-15.
- 1 2 Fieldhouse 1973, p. 1-9.
- ↑ Hobsbawm 1989, p. 56-83.
- ↑ Hobson 1902, p. 1-12.
- ↑ Hobson 1902, p. 30-45.
- 1 2 3 Hobson 1902, p. 76-91.
- 1 2 Hobson 1902, p. 91-116.
- 1 2 3 Cain 2002, p. 1-15.
- ↑ Hobson 1902, p. 119-161.
- ↑ Lenin 1916, p. 5-10.
- ↑ Lenin 1916, p. 187-195.
- ↑ Lenin 1916, p. 196-209.
- ↑ Lenin 1916, p. 210-239.
- ↑ Lenin 1916, p. 226-239.
- ↑ Lenin 1916, p. 240-245.
- ↑ Lenin 1916, p. 246-253.
- 1 2 Lenin 1916, p. 254-264.
- 1 2 3 4 Lenin 1916, p. 265-275.
- 1 2 Lenin 1916, p. 285-297.
- ↑ Lenin 1916, p. 240-264.
- ↑ Lenin 1916, p. 276-284.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 1-10.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 11-28.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 29-45.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 45-63.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 63-80.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 81-101.
- 1 2 Schumpeter 1955, p. 101-120.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 121-139.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 139-160.
- ↑ Schumpeter 1955, p. 101-160.
- 1 2 Gallagher & Robinson 1953, p. 1-6.
- 1 2 3 Gallagher & Robinson 1953, p. 6-15.
- ↑ Burbank & Cooper 2010, p. 293-320.
- 1 2 3 Attard 2022, p. 1-20.
- ↑ Wallerstein 1974, p. 1-15.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Cardoso & Faletto 1970, p. 1-20.
- 1 2 3 Cardoso & Faletto 1970, p. 18-28.
- ↑ Marini 1973, p. 87-104.
- ↑ Marini 1973, p. 31-42.
- 1 2 3 Wallerstein 1974, p. 7-15.
- 1 2 Wallerstein 1974, p. 349-362.
- ↑ Wallerstein 1974, p. 357-362.
- 1 2 Wallerstein 1974, p. 229-234.
- 1 2 Fieldhouse 1966, p. 187-209.
- 1 2 Said 1978, p. 1-28.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 Cooper 2005, p. 27-52.
- 1 2 3 4 5 Said 1978, p. 31-110.
- ↑ Guha 1982, p. 1-8.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Bayly 2004, p. 1-25.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 Fieldhouse 1961, p. 187-209.
- ↑ Pakenham 1991, p. 9-24.
- 1 2 3 Pakenham 1991, p. 90-105.
- 1 2 Gallagher & Robinson 1961, p. 1-20.
- ↑ Pakenham 1991, p. 1-24.
- ↑ Pakenham 1991, p. 25-44.
- ↑ Pakenham 1991, p. 45-64.
- ↑ Hochschild 1998, p. 83-109.
- ↑ Pakenham 1991, p. 89-105.
- ↑ Pakenham 1991, p. 101-105.
- ↑ Pakenham 1991, p. 135-153.
- 1 2 3 Pakenham 1991, p. 267-283.
- ↑ S. Gertrude Millin, Rhodes, Londres: 1933, p.138.
- ↑ Pakenham 1991, p. 87-89.
- ↑ Pankhurst 1998, p. 173-188.
- 1 2 3 Pankhurst 1998, p. 188-205.
- ↑ Clarence-Smith 1985, p. 69-91.
- 1 2 3 Zimmerer 2005, p. 45-63.
- ↑ Metcalf & Metcalf 2006, p. 91-116.
- ↑ Metcalf & Metcalf 2006, p. 116-141.
- ↑ Bayly 1988, p. 1-25.
- ↑ Metcalf & Metcalf 2006, p. 141-164.
- 1 2 Hopkirk 1990, p. 1-18.
- 1 2 Fairbank 1983, p. 200-236.
- ↑ Fairbank 1983, p. 237-267.
- ↑ Jansen 2000, p. 333-369.
- 1 2 Jansen 2000, p. 437-462.
- ↑ Jansen 2000, p. 501-520.
- 1 2 3 4 5 LaFeber 1989, p. 1-20.
- 1 2 LaFeber 1989, p. 20-34.
- ↑ LaFeber 1989, p. 41-65.
- 1 2 LaFeber 1989, p. 66-91.
- 1 2 3 LaFeber 1989, p. 91-119.
- 1 2 3 4 LaFeber 1989, p. 120-145.
- 1 2 LaFeber 1989, p. 146-175.
- 1 2 LaFeber 1989, p. 176-205.
- ↑ LaFeber 1989, p. 146-205.
- 1 2 Clark 2013, p. 1-21.
- ↑ Clark 2013, p. 77-95.
- 1 2 Clark 2013, p. 95-109.
- 1 2 3 Clark 2013, p. 109-125.
- ↑ Clark 2013, p. 95-125.
- ↑ Clark 2013, p. 125-145.
- ↑ Clark 2013, p. 145-165.
- 1 2 Clark 2013, p. 165-200.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Bayly 2004, p. 25-45.
- ↑ Metcalf & Metcalf 2006, p. 164-205.
- ↑ Hobsbawm 1995, p. 97-119.
- 1 2 3 4 Jansen 2000, p. 520-548.
- 1 2 Hobsbawm 1995, p. 125-146.
- 1 2 3 4 5 6 7 Mazower 2008, p. 13-40.
- 1 2 Bayly & Harper 2004, p. 1-25.
- 1 2 3 4 5 6 Bayly & Harper 2004, p. 25-45.
- 1 2 Metcalf & Metcalf 2006, p. 205-229.
- 1 2 3 4 5 6 7 Nkrumah 1965, p. 1-20.
- ↑ Metcalf & Metcalf 2006, p. 164-229.
- ↑ Bayly & Harper 2004, p. 45-70.
- 1 2 3 4 Cooper 2005, p. 91-116.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Cooper 2005, p. 52-91.
- 1 2 Cooper 2005, p. 116-140.
- ↑ Cooper 2005, p. 141-166.
- ↑ Marini 2000, p. 105-134.
- 1 2 3 Westad 2005, p. 1-20.
- 1 2 3 4 5 Harvey 2004, p. 1-38.
- ↑ Harvey 2004, p. 137-182.
- 1 2 Quijano 2005, p. 117-142.
Bibliografia
[editar | editar código]- Attard, Bernard (2022). «Informal Empire: The Origin and Significance of a Key Term». Modern Intellectual History. doi:10.1017/S1479244322000388
- Amin, Samir (1974). Accumulation on a World Scale: A Critique of the Theory of Underdevelopment. Nova York: Monthly Review Press. 640 páginas
- Bayly, Christopher Alan (1989). Imperial Meridian: The British Empire and the World, 1780-1830. Londres: Longman. 307 páginas
- Burbank, Jane; Cooper, Frederick (2010). Empires in World History: Power and the Politics of Difference. Princeton: Princeton University Press. 511 páginas
- Cain, P. J.; Hopkins, A. G. (1993). British Imperialism: Innovation and Expansion, 1688-1914. Londres: Longman. 504 páginas
- Cardoso, Fernando Henrique; Faletto, Enzo (1970). Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar. 143 páginas
- Cooper, Frederick (2005). Colonialism in Question: Theory, Knowledge, History. Berkeley: University of California Press. 308 páginas
- Frank, Andre Gunder (1966). «The Development of Underdevelopment». Monthly Review. 18 (4): 17-31. doi:10.14452/MR-018-04-1966-08_3
- Fieldhouse, D. K. (1973). Economics and Empire, 1830-1914. Ithaca: Cornell University Press. 527 páginas
- Gallagher, John; Robinson, Ronald; Denny, Alice (1961). Africa and the Victorians: The Official Mind of Imperialism. Londres: Macmillan. 464 páginas
- Gallagher, John; Robinson, Ronald (1953). «The Imperialism of Free Trade». The Economic History Review. 6 (1): 1-15. doi:10.1111/j.1468-0289.1953.tb01482.x
- Hobson, John Atkinson (1902). Imperialism: A Study. Londres: J. Pott & Company. 400 páginas
- Hobsbawm, Eric (1987). The Age of Empire: 1875-1914. Londres: Weidenfeld and Nicolson. 404 páginas
- Koebner, Richard; Schmidt, Helmut Dan (1964). Imperialism: The Story and Significance of a Political Word, 1840-1960. Cambridge: Cambridge University Press. 432 páginas
- Lenin, Vladimir Ilitch (1963). Империализм как высшая стадия капитализма [Imperialismo, fase superior do capitalismo]. Moscou: Progress Publishers. pp. 667–766
- Pakenham, Thomas (1991). The Scramble for Africa: White Man's Conquest of the Dark Continent from 1876 to 1912. Nova Iorque: Random House. 738 páginas
- Said, Edward W. (1993). Culture and Imperialism. Nova York: Alfred A. Knopf. 380 páginas
- Schumpeter, Joseph A. (1955). Sweezy, Paul M., ed. Imperialism and Social Classes. Nova York: Meridian Books
- Wallerstein, Immanuel (1974). The Modern World-System: Capitalist Agriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century. Nova York: Academic Press. 410 páginas
Leituras complementares
[editar | editar código]- Bambirra, Vânia (2023). O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular. 224 páginas
- Darwin, John (2007). After Tamerlane: The Rise and Fall of Global Empires, 1400-2000. Londres: Allen Lane. 575 páginas
- Ferro, Marc (1996). História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX. São Paulo: Companhia das Letras
- Lenin, Vladimir Ilitch (2021). Imperialismo, estágio superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo. 192 páginas
- Marini, Ruy Mauro (2023). Subdesenvolvimento e revolução. Florianópolis: Insular. 277 páginas
- Osterhammel, Jürgen (2014). The Transformation of the World: A Global History of the Nineteenth Century. Princeton: Princeton University Press. 1161 páginas
- Robinson, Ronald; Gallagher, John; Denny, Alice (1961). Africa and the Victorians: The Official Mind of Imperialism. Londres: Macmillan. 464 páginas
- Said, Edward W. (2007). Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras
- Santos, Theotônio dos (2000). Teoria da dependência: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira
- Schmidt, Elizabeth (2013). Foreign Intervention in Africa: From the Cold War to the War on Terror. Cambridge: Cambridge University Press
- Smith, Simon C. (1998). British Imperialism, 1750-1970. Cambridge: Cambridge University Press. 192 páginas
- Young, Robert J. C. (2001). Postcolonialism: An Historical Introduction. Oxford: Blackwell. 596 páginas
- Cláudio Fernandes. «Primeira Guerra Mundial: A Grande Guerra». História do Mundo. Consultado em 7 de julho de 2017. Cópia arquivada em 2 de outubro de 2018
- «Charlton T. Lewis, An Elementary Latin Dictionary, imperium (inp-)» (em inglês). Consultado em 7 de julho de 2017. Cópia arquivada em 9 de fevereiro de 2026
- Barbara Bush (2006). Imperialism And Postcolonialism (em inglês). [S.l.]: Pearson Longman. p. 46. ISBN 978-0-582-50583-4. Cópia arquivada em 20 de abril de 2017
- «Capítulo VI — O Partido Bolchevique Durante o Período da Guerra Imperialista. A Segunda Revolução na Rússia (1914- Março de 1917)». História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS. Marxist.org). Pernmabuco, Brasil: Edições Centro Cultural Manoel Lisboa. 1999. Consultado em 26 de agosto de 2023. Cópia arquivada em 24 de dezembro de 2024
Ligações externas
[editar | editar código]- O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo — texto integral em português, baseado na tradução das Edições Avante!/Progresso.
- O Imperialismo Fase Particular do Capitalismo — capítulo VII da obra de Lênin.
- Prefácio de O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo — texto em português.
- Imperialismo: um estudo — página da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina sobre a edição brasileira de John A. Hobson.
- Imperialismo: um estudo — apresentação da edição brasileira pela Editora da UFSC.
- Dependência e desenvolvimento na América Latina — registro bibliográfico da Universidade de São Paulo.
- O capitalismo dependente latino-americano — página da Editora Insular.
- Subdesenvolvimento e revolução — página da Editora Insular.