Trabalhismo brasileiro
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Pessoal e política 14.º Presidente do Brasil
17.º Presidente do Brasil Legado |
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O trabalhismo brasileiro, também denominado nacional-trabalhismo ou simplesmente trabalhismo, é uma corrente política, ideologia, tradição política e cultura política do Brasil, caracterizada pela defesa da integração da classe trabalhadora ao Estado nacional por meio da ampliação da legislação social, da valorização do trabalho, do nacionalismo, do desenvolvimentismo e da atuação do Estado na promoção do desenvolvimento econômico e da justiça social.[1][2]
Suas origens remontam às transformações políticas e sociais das primeiras décadas do século XX, especialmente à influência do castilhismo, do positivismo, do tenentismo, do movimento operário e do pensamento nacionalista brasileiro. Consolidou-se durante a Era Vargas, quando a legislação trabalhista passou a ocupar posição central na organização das relações entre Estado, capital e trabalho, sendo institucionalizado com a fundação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em 1945.[3][4]
Ao longo do século XX, o trabalhismo exerceu influência significativa sobre a política brasileira, particularmente durante os governos de Getúlio Vargas e João Goulart, desenvolvendo diferentes correntes internas representadas por lideranças como Alberto Pasqualini, Santiago Dantas e Leonel Brizola. Sua formulação doutrinária e suas interpretações historiográficas incorporaram diferentes influências intelectuais e políticas, tornando-o objeto de múltiplas leituras quanto à sua natureza ideológica e à sua inserção na história política brasileira.[5][6]
História
[editar | editar código]Antecedentes
[editar | editar código]A formação do trabalhismo brasileiro é compreendida pela historiografia como resultado da convergência de diferentes tradições políticas, intelectuais e sociais que marcaram a transição do Império do Brasil para a Primeira República Brasileira e, posteriormente, para a Era Vargas. Em vez de constituir uma doutrina formulada de maneira sistemática desde sua origem, o trabalhismo consolidou-se gradualmente por meio da incorporação de elementos provenientes do castilhismo, do positivismo, do nacionalismo brasileiro, do movimento operário, do tenentismo e da experiência administrativa do Estado brasileiro nas primeiras décadas do século XX.[1][7][8]
Embora institucionalizado apenas em 1945 com a criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), suas bases políticas e ideológicas foram sendo construídas desde o final do século XIX. A consolidação do Estado republicano, a expansão da industrialização, a organização do movimento operário e o fortalecimento das propostas de modernização administrativa contribuíram para a formulação de um projeto que buscava conciliar desenvolvimento econômico, integração nacional e ampliação da proteção social sob a coordenação do Estado.[3][4]
Castilhismo e positivismo
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Entre os antecedentes intelectuais do trabalhismo brasileiro, a historiografia destaca a influência do castilhismo, corrente política desenvolvida no Rio Grande do Sul a partir da atuação de Júlio de Castilhos e posteriormente consolidada por Borges de Medeiros. Inspirado no positivismo de Auguste Comte, o castilhismo defendia um Estado forte, centralizado e orientado pela ação de um Poder Executivo capaz de promover a modernização política e econômica da sociedade.[9][10]
Embora formulado no contexto da política rio-grandense, o castilhismo exerceu influência sobre parte da elite política que conduziu a Revolução de 1930. Segundo a historiografia, Getúlio Vargas, filiado ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), incorporou diversos elementos dessa tradição, especialmente a valorização do Estado como agente da integração nacional, da mediação dos conflitos sociais e da promoção do desenvolvimento econômico.[11][8]
Entretanto, autores como Angela de Castro Gomes observam que o trabalhismo não constituiu mera continuidade do castilhismo. Sua formação resultou da incorporação de diferentes matrizes políticas e intelectuais, entre elas o nacionalismo, o movimento operário e a experiência administrativa da Era Vargas, que ampliaram significativamente o horizonte doutrinário originalmente formulado pelos republicanos rio-grandenses.[1][7]
Nacionalismo e pensamento político brasileiro
[editar | editar código]Entre as matrizes intelectuais do trabalhismo, a historiografia destaca a influência do pensamento nacionalista brasileiro desenvolvido nas primeiras décadas do século XX. Inseridos na tradição do pensamento político autoritário brasileiro, autores como Alberto Torres e Oliveira Vianna defenderam o fortalecimento do Estado nacional como instrumento de integração política, modernização administrativa e superação das estruturas oligárquicas características da Primeira República Brasileira. Embora apresentassem diferenças entre si, ambos atribuíram ao poder público um papel central na construção da nacionalidade e na organização da sociedade brasileira.[12][13][14][15]
Em obras como O idealismo da Constituição, Oliveira Vianna sustentava que a consolidação da nacionalidade brasileira dependia da formação de instituições políticas capazes de integrar o território, disciplinar as relações sociais e promover a modernização do país. Suas reflexões sobre representação corporativa, organização sindical, legislação social e administração pública exerceram influência sobre parte da burocracia estatal e sobre a formulação das políticas trabalhistas durante a Era Vargas.[16][4]
Segundo Ricardo Vélez Rodríguez, a aproximação de Getúlio Vargas com as ideias de Oliveira Vianna contribuiu para ampliar o horizonte político originalmente associado ao castilhismo, deslocando sua atuação de uma tradição predominantemente regional para um projeto nacional de reorganização do Estado brasileiro.[17]
Autores como Bolívar Lamounier, Wanderley Guilherme dos Santos e Gildo Marçal Brandão observam, contudo, que o pensamento autoritário brasileiro constituiu uma tradição intelectual mais ampla, da qual Oliveira Vianna foi apenas um de seus principais representantes. Nesse contexto, suas formulações influenciaram diferentes projetos de organização estatal ao longo do século XX, não se restringindo ao trabalhismo nem se confundindo integralmente com ele.[18][19][15]
A historiografia contemporânea ressalta, entretanto, que o trabalhismo não constituiu mera expressão do pensamento de Oliveira Vianna ou do nacionalismo autoritário. Conforme observam Angela de Castro Gomes e Jorge Ferreira, sua formação resultou da convergência de diferentes tradições políticas, intelectuais e sociais, incorporando influências do castilhismo, do movimento operário, do tenentismo, da Doutrina Social da Igreja, do nacionalismo econômico e da experiência institucional desenvolvida durante a Era Vargas.[1][7]
Movimento operário
[editar | editar código]A expansão da industrialização brasileira nas primeiras décadas do século XX foi acompanhada pelo crescimento do movimento operário e pela intensificação das reivindicações por melhores condições de trabalho, redução da jornada, regulamentação das relações trabalhistas e ampliação dos direitos sociais. Inspirados por diferentes correntes, como o anarcossindicalismo, o socialismo e, posteriormente, o comunismo, os trabalhadores organizaram greves e associações que passaram a pressionar o Estado por mecanismos de proteção social.[20][21]
As grandes greves ocorridas entre as décadas de 1910 e 1920, especialmente a Greve Geral de 1917, evidenciaram os limites do modelo liberal adotado durante a Primeira República Brasileira e contribuíram para ampliar o debate sobre o papel do Estado na mediação dos conflitos entre capital e trabalho. Embora o trabalhismo posteriormente divergisse das propostas revolucionárias defendidas por parte do movimento operário, incorporou diversas de suas reivindicações ao transformá-las em políticas públicas durante a Era Vargas.[22][23]
Segundo Angela de Castro Gomes, a principal inovação do trabalhismo consistiu em deslocar a chamada "questão social" do campo da repressão policial para o da ação estatal, incorporando direitos trabalhistas à estrutura institucional brasileira e conferindo ao Estado o papel de mediador das relações entre capital e trabalho.[3]
Tenentismo
[editar | editar código]Outra importante matriz do trabalhismo foi o tenentismo, movimento político-militar protagonizado por jovens oficiais do Exército Brasileiro durante a Primeira República Brasileira. Insatisfeitos com o predomínio das oligarquias estaduais e com o funcionamento do sistema político republicano, os tenentistas defendiam a modernização administrativa do Estado, a centralização do poder político, o fortalecimento das instituições nacionais e a ampliação da participação política por meio de reformas eleitorais e educacionais.[8][24]

Embora não constituísse um movimento trabalhista nem apresentasse um programa voltado especificamente às relações entre capital e trabalho, o tenentismo compartilhava com outras correntes reformistas a defesa de um Estado capaz de promover a integração nacional e superar os impasses do federalismo oligárquico. Seus integrantes participaram ativamente da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder e inaugurou um novo ciclo de reorganização institucional do Estado brasileiro.[25][26]
A historiografia considera que a experiência tenentista exerceu influência sobre a organização do Estado durante a Era Vargas, especialmente no fortalecimento da administração pública, na centralização político-administrativa e na formulação de um projeto nacional de desenvolvimento. Essas transformações forneceram parte do ambiente institucional em que o trabalhismo seria posteriormente estruturado como prática de governo e corrente política.[7][4]
Consolidação durante a Era Vargas
[editar | editar código]A Revolução de 1930 inaugurou um processo de reorganização política e administrativa que transformou profundamente as relações entre Estado, capital e trabalho no Brasil. Sob a liderança de Getúlio Vargas, o governo federal promoveu a centralização administrativa, ampliou sua capacidade de intervenção econômica e passou a desenvolver uma legislação social voltada para a regulamentação das relações de trabalho e para a incorporação política da classe trabalhadora.[4][3]
Segundo Angela de Castro Gomes, foi nesse contexto que se consolidou o trabalhismo como cultura política. A ampliação dos direitos sociais, a criação de órgãos especializados na administração das relações trabalhistas e o reconhecimento institucional dos sindicatos constituíram mecanismos por meio dos quais o Estado buscou integrar os trabalhadores ao projeto nacional conduzido pelo governo Vargas.[3]
Entre as principais medidas adotadas destacaram-se a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em 1930, a regulamentação da organização sindical, a instituição da Justiça do Trabalho e, posteriormente, a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. Essas iniciativas ampliaram a proteção jurídica dos trabalhadores urbanos e estabeleceram um novo modelo de mediação estatal dos conflitos trabalhistas.[4][27]
Embora tais políticas tenham sido frequentemente associadas ao corporativismo característico de diversos Estados do período entre guerras, a historiografia ressalta que o trabalhismo brasileiro desenvolveu características próprias, resultantes da combinação entre nacionalismo, legislação social, desenvolvimento econômico e participação política dos trabalhadores por intermédio de instituições reconhecidas pelo Estado.[28][29]
A institucionalização política do trabalhismo ocorreu em 1945, com a criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Organizado a partir das bases sindicais constituídas durante a Era Vargas, o partido passou a representar eleitoralmente grande parte do legado político do getulismo, tornando-se uma das principais forças da República de 1946.[30][31]
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1930 | Criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio |
| 1932 | Primeiras regulamentações sindicais |
| 1939 | Organização da Justiça do Trabalho |
| 1943 | Promulgação da CLT |
| 1945 | Fundação do Partido Trabalhista Brasileiro |
O Partido Trabalhista Brasileiro
[editar | editar código]Com o fim do Estado Novo e a redemocratização de 1945, o trabalhismo passou a constituir também uma organização partidária. Em 15 de maio daquele ano foi fundado o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), criado com o objetivo de representar politicamente os trabalhadores urbanos e preservar o legado social e político da Era Vargas no novo regime democrático.[30][31]
Embora mantivesse estreita identificação com Getúlio Vargas, o PTB reuniu diferentes correntes internas e lideranças regionais, tornando-se uma das principais forças políticas da República de 1946. Ao lado do Partido Social Democrático (PSD), integrou a base política do getulismo, distinguindo-se por sua maior vinculação ao sindicalismo urbano, à ampliação dos direitos sociais e à organização política dos trabalhadores.[32][33]
A partir da década de 1950, o partido ampliou sua atuação eleitoral e passou a incorporar diferentes interpretações do trabalhismo. Entre seus principais formuladores destacaram-se Alberto Pasqualini, responsável por sistematizar parte de sua doutrina política, João Goulart, que fortaleceu sua inserção junto ao movimento sindical, e Leonel Brizola, cuja atuação contribuiu para ampliar a defesa das reformas estruturais e do nacionalismo econômico.[34][35]
Durante as décadas de 1950 e 1960, o trabalhismo enveredou como a principal vertente da esquerda política moderada na política brasileira, atraindo setores e eleitores que não se identificavam nem com a direita nem com o comunismo. Nesse sentido, vale citar a definição de trabalhismo dada por Leonel Brizola, em um texto publicado durante a campanha para as eleições gerais no Brasil em 1958:
Entre outras coisas cumpre dizer que o trabalhismo é nacionalista, o comunismo é internacional; o comunismo é materialista, o trabalhismo se inspira na doutrina social cristã; o comunismo é a abolição da propriedade, o trabalhismo defende a propriedade dentro de um fim social; o comunismo escraviza o homem ao Estado e prescreve o regime de garantia do trabalho, o trabalhismo é a dignificação do trabalho e não tolera a exploração do homem pelo Estado nem do homem pelo homem; o comunismo educa para formar uma sociedade de formigas, o trabalhismo educa para o progresso, para a liberdade, para a elevação da pessoa humana. O comunismo existe onde pontifica o capitalismo reacionário e explorador e desaparece nas comunidades e países bem organizados sob o ponto de vista social e humano.[36]
Segundo Jorge Ferreira, foi nesse período que o trabalhismo deixou de constituir apenas uma política estatal associada ao governo Vargas para consolidar-se como uma tradição política dotada de identidade programática, base eleitoral própria e crescente autonomia em relação ao getulismo original.[37]
Reformismo e governo João Goulart
[editar | editar código]A partir da segunda metade da década de 1950, o trabalhismo ampliou sua atuação política e programática, passando a defender um conjunto de reformas estruturais voltadas à redução das desigualdades sociais, ao fortalecimento da soberania nacional e à ampliação da participação política. Esse processo intensificou-se durante a liderança de João Goulart, que assumiu a presidência da República em 1961 após a renúncia de Jânio Quadros.[38][39]
No governo Goulart, o trabalhismo passou a articular um programa conhecido como Reformas de Base, que incluía propostas de reforma agrária, reforma tributária, reforma bancária, reforma administrativa, reforma universitária e ampliação dos direitos políticos e sociais. Segundo a historiografia, essas medidas buscavam compatibilizar desenvolvimento econômico, justiça social e aprofundamento da democracia representativa.[40][41]
Nesse período, o trabalhismo também fortaleceu sua aproximação com movimentos sindicais, organizações estudantis e setores nacionalistas, defendendo maior controle estatal sobre recursos estratégicos, ampliação da participação popular e políticas voltadas ao desenvolvimento nacional. Ao mesmo tempo, tais propostas passaram a enfrentar crescente oposição de setores empresariais, militares e parte da imprensa, em um contexto marcado pela polarização política da Guerra Fria.[42][43]
O golpe de Estado no Brasil em 1964 interrompeu esse processo, extinguindo o Partido Trabalhista Brasileiro e impondo restrições à atuação de suas principais lideranças. Para a historiografia, o golpe representou também a ruptura do ciclo histórico iniciado com a Revolução de 1930, encerrando a primeira experiência do trabalhismo como força política nacional organizada.[44][45]
Ditadura militar e reorganização
[editar | editar código]O golpe de Estado no Brasil em 1964 interrompeu a trajetória institucional do trabalhismo iniciada com a Revolução de 1930. A deposição de João Goulart, seguida da edição do Ato Institucional Número Dois, em 1965, extinguiu o sistema pluripartidário e levou à dissolução do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Diversas lideranças trabalhistas tiveram seus mandatos cassados, direitos políticos suspensos ou foram compelidas ao exílio.[44][45]
Apesar da extinção do PTB, o trabalhismo permaneceu como uma tradição política. Durante o regime militar, antigos dirigentes e militantes mantiveram articulações em torno da defesa da democracia, da anistia e da restauração das liberdades políticas. No exílio, Leonel Brizola tornou-se uma das principais referências do movimento, articulando contatos com lideranças políticas brasileiras e organizações internacionais.[46][47]
Com a abertura política iniciada no final da década de 1970, diversos grupos buscaram reorganizar o trabalhismo. A disputa pela utilização da sigla do PTB foi decidida em 1980 pelo Tribunal Superior Eleitoral, que a atribuiu ao grupo liderado por Ivete Vargas. Em consequência, Brizola e seus apoiadores fundaram o Partido Democrático Trabalhista (PDT), reivindicando a continuidade da tradição política trabalhista iniciada durante a Era Vargas.[48][49]
A historiografia considera que a reorganização do trabalhismo ocorreu de forma plural. Enquanto o PDT assumiu explicitamente a herança política de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, outros partidos passaram a reivindicar, em maior ou menor grau, aspectos do legado trabalhista, contribuindo para a diversificação das interpretações sobre o movimento nas décadas seguintes.[50]
Ideário
[editar | editar código]O ideário trabalhista consolidou-se ao longo da Era Vargas e da República de 1946, reunindo contribuições de diferentes tradições políticas e intelectuais. Embora não tenha constituído uma doutrina homogênea, passou a defender princípios como a valorização do trabalho, a ampliação da cidadania social, o nacionalismo econômico, o desenvolvimento industrial, a função social da propriedade, a intervenção do Estado na economia e a democratização das oportunidades por meio da educação e da legislação social.[51][3][37]
Segundo a historiografia, o trabalhismo brasileiro distinguiu-se tanto do liberalismo econômico clássico quanto do socialismo revolucionário. Em lugar da defesa do Estado mínimo ou da coletivização dos meios de produção, propôs a mediação estatal dos conflitos entre capital e trabalho, preservando a propriedade privada, mas subordinando seu exercício ao interesse público e à promoção da justiça social.[52][32]
Ao longo de sua trajetória, o trabalhismo incorporou influências do positivismo, do castilhismo, do solidarismo, da Doutrina Social da Igreja, da democracia social e do nacional-desenvolvimentismo, cujas diferentes combinações deram origem às diversas correntes internas do movimento.[37][6]
Nacionalismo
[editar | editar código]O nacionalismo constituiu um dos princípios centrais do ideário trabalhista. Desde sua formulação durante a Era Vargas, o trabalhismo defendeu a consolidação da soberania nacional por meio do fortalecimento das instituições do Estado, da integração territorial, da industrialização e do controle nacional sobre setores considerados estratégicos da economia.[3][37]
Na perspectiva trabalhista, o desenvolvimento econômico era entendido como condição para a autonomia política do país. Essa concepção traduziu-se na defesa da ampliação da capacidade de planejamento do Estado, da criação de empresas estatais e da proteção de recursos naturais considerados essenciais ao interesse nacional. Entre as iniciativas frequentemente associadas a esse projeto destacam-se a criação da Petrobras, em 1953, e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em 1952, durante o segundo governo de Getúlio Vargas.[32][53]
A partir da década de 1960, o nacionalismo trabalhista passou a incorporar de forma mais explícita a defesa das chamadas Reformas de Base, do fortalecimento das empresas públicas e da ampliação do controle nacional sobre recursos estratégicos e setores da infraestrutura. Durante esse período, lideranças como João Goulart e Leonel Brizola associaram o nacionalismo à defesa da soberania econômica, da redução das desigualdades sociais e da ampliação da participação democrática.[54][55]
A historiografia observa que o nacionalismo trabalhista não constituiu uma corrente homogênea. Embora preservasse a defesa da economia de mercado, atribuía ao Estado a responsabilidade de coordenar o desenvolvimento nacional, reduzir a dependência externa e promover políticas públicas voltadas à industrialização e à justiça social.[27][56]
Desenvolvimentismo
[editar | editar código]O desenvolvimentismo constituiu um dos principais eixos do ideário trabalhista, sendo compreendido como a defesa de um processo de industrialização conduzido pelo Estado, capaz de promover o crescimento econômico, reduzir as desigualdades regionais e fortalecer a autonomia nacional. Para o trabalhismo, o desenvolvimento econômico não representava apenas um objetivo produtivo, mas também um instrumento de ampliação da cidadania e de integração social.[56][57]
Inspirado pelas formulações da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e por interpretações nacionalistas da economia brasileira, o trabalhismo defendeu políticas de substituição de importações, expansão da infraestrutura, fortalecimento da indústria de base e ampliação dos investimentos públicos em setores estratégicos. Nesse contexto, o Estado assumiria funções de planejamento, coordenação e indução do desenvolvimento, sem excluir a participação da iniciativa privada.[57][58]
Durante os governos de Getúlio Vargas e João Goulart, esse projeto refletiu-se na criação e no fortalecimento de instituições voltadas ao financiamento e à execução de políticas de desenvolvimento, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), além da expansão das empresas estatais ligadas aos setores de energia, transportes e infraestrutura.[32][53]
A historiografia observa que o desenvolvimentismo trabalhista distinguia-se tanto do liberalismo econômico quanto das propostas de planificação integral da economia. Em sua formulação predominante, defendia a economia de mercado, atribuindo ao Estado a responsabilidade de orientar os investimentos estratégicos, reduzir os desequilíbrios estruturais e promover o desenvolvimento nacional com inclusão social.[59][60]
Questão social
[editar | editar código]A valorização do trabalho e a incorporação da questão social à esfera da ação estatal constituíram um dos elementos centrais do ideário trabalhista. Em oposição à concepção predominante durante a Primeira República Brasileira, que frequentemente tratava os conflitos trabalhistas como matéria de polícia, o trabalhismo defendeu sua institucionalização por meio da legislação social e da atuação do Estado como mediador das relações entre capital e trabalho.[3][61]
Segundo Angela de Castro Gomes, a principal inovação do trabalhismo consistiu em transformar a questão social em objeto de políticas públicas, vinculando a cidadania ao reconhecimento de direitos trabalhistas e previdenciários. Esse processo resultou na construção de um modelo de cidadania regulada, no qual o acesso a diversos direitos sociais passou a ser intermediado pelo vínculo formal de trabalho e pelas instituições estatais.[27][62]
Durante a Era Vargas, essa concepção materializou-se na criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, na regulamentação das organizações sindicais, na instituição da Justiça do Trabalho, na ampliação da legislação previdenciária e, posteriormente, na promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. Embora voltadas inicialmente aos trabalhadores urbanos formalmente registrados, essas medidas representaram um marco na consolidação dos direitos sociais no Brasil.[4][61]
A historiografia ressalta que esse modelo foi objeto de diferentes interpretações. Enquanto parte dos autores enfatiza sua contribuição para a ampliação da cidadania social e da proteção ao trabalho, outros destacam seu caráter corporativo e os mecanismos de controle estatal sobre a organização sindical. Apesar dessas divergências, há amplo consenso de que o trabalhismo alterou profundamente a relação entre Estado, trabalhadores e direitos sociais na história brasileira.[63][64][37]
Social democracia
[editar | editar código]A formulação doutrinária do trabalhismo brasileiro foi desenvolvida principalmente a partir da atuação de Alberto Pasqualini, considerado pela historiografia seu principal sistematizador. Inspirado pelo solidarismo, pela Doutrina Social da Igreja, pelo pensamento social europeu e pela tradição reformista brasileira, Pasqualini procurou conferir unidade teórica às práticas políticas iniciadas durante a Era Vargas, defendendo uma sociedade baseada na conciliação entre liberdade econômica, justiça social e solidariedade.[51][37]
Em oposição tanto ao liberalismo econômico quanto ao socialismo revolucionário, Pasqualini sustentava que o Estado deveria atuar como promotor do bem comum, reduzindo desigualdades sociais por meio da educação, da legislação trabalhista, da previdência social e da ampliação das oportunidades econômicas. Embora reconhecesse a propriedade privada e a economia de mercado, entendia que ambas deveriam estar subordinadas à sua função social e ao interesse coletivo.[52][65]
Um dos conceitos centrais de sua obra foi o de capitalismo solidarista, expressão utilizada para designar uma economia de mercado regulada pelo Estado e orientada pela promoção da justiça social. Nessa perspectiva, a iniciativa privada era considerada compatível com a democracia, desde que seus resultados contribuíssem para o desenvolvimento nacional e para a melhoria das condições de vida da população.[66][67]
Posteriormente, autores e lideranças como Santiago Dantas ampliaram essa formulação ao enfatizar a compatibilidade entre democracia política, desenvolvimento econômico e reformas sociais graduais. Durante a República de 1946, essas interpretações aproximaram o trabalhismo de correntes identificadas com a democracia social, preservando, entretanto, características próprias relacionadas ao nacionalismo econômico, à centralidade do Estado e à valorização do trabalho como fundamento da cidadania.[68][69]
A historiografia contemporânea observa que o trabalhismo brasileiro não pode ser reduzido a uma única formulação doutrinária. Embora a obra de Pasqualini tenha exercido influência decisiva sobre sua sistematização teórica, o movimento incorporou contribuições provenientes do castilhismo, do positivismo, do nacional-desenvolvimentismo, do solidarismo, da Doutrina Social da Igreja e da experiência política construída durante a Era Vargas, resultando em uma tradição política plural e sujeita a diferentes interpretações ao longo do século XX.[70][71]
Correntes internas
[editar | editar código]Embora compartilhassem princípios comuns, como o nacionalismo, a valorização do trabalho, a defesa da legislação social e o papel do Estado na promoção do desenvolvimento, as diferentes gerações de trabalhistas formularam interpretações distintas acerca dos objetivos e dos instrumentos da ação política. A historiografia, por essa razão, identifica no interior do trabalhismo diversas correntes que refletiram as transformações da sociedade brasileira ao longo do século XX.[72][70]
Getulismo
[editar | editar código]O getulismo constituiu a primeira expressão política do trabalhismo brasileiro. Desenvolvido durante a Era Vargas, caracterizou-se pela construção de um Estado nacional centralizado, pela institucionalização da legislação trabalhista, pela organização sindical sob supervisão estatal e pela promoção da industrialização como fundamento do desenvolvimento econômico.[73][74]
Segundo a historiografia, o getulismo forneceu as bases institucionais sobre as quais o trabalhismo seria posteriormente organizado como corrente política e doutrinária.[31]
Pasqualinismo
[editar | editar código]A formulação doutrinária mais sistemática do trabalhismo foi desenvolvida por Alberto Pasqualini, cujas ideias passaram a ser conhecidas como pasqualinismo. Inspirado pelo solidarismo, pela Doutrina Social da Igreja e pela democracia social, Pasqualini defendeu uma economia de mercado regulada pelo Estado, orientada pela função social da propriedade, pela valorização do trabalho e pela redução das desigualdades sociais.[75][65]
Sua obra exerceu ampla influência sobre a identidade programática do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), tornando-se uma das principais referências teóricas do trabalhismo brasileiro.[76]
Janguismo
[editar | editar código]Durante a liderança de João Goulart, o trabalhismo passou a enfatizar a realização das Reformas de Base, a ampliação dos direitos sociais, a democratização das estruturas econômicas e o fortalecimento da participação popular. Essa orientação aproximou o movimento de setores sindicais, estudantis e nacionalistas, ampliando sua agenda reformista durante o início da década de 1960.[54][77]
A radicalização do contexto político que antecedeu o golpe de Estado no Brasil em 1964 interrompeu esse processo, cuja memória permaneceu como uma das principais referências do trabalhismo nas décadas posteriores.[45]
Brizolismo
[editar | editar código]Após a extinção do PTB em 1965, Leonel Brizola tornou-se o principal responsável pela reorganização do trabalhismo durante a redemocratização brasileira. Sua interpretação do trabalhismo enfatizou a defesa da soberania nacional, da educação pública, das empresas estatais, da participação popular e da ampliação dos direitos sociais.[78][49]
Com a fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT), em 1980, o brizolismo passou a reivindicar explicitamente a continuidade da tradição política iniciada durante a Era Vargas, reinterpretando-a à luz das transformações sociais e políticas ocorridas após o regime militar.[50]
Legado
[editar | editar código]O trabalhismo exerceu influência duradoura sobre a organização política, social e institucional do Brasil. A consolidação da legislação trabalhista, da Justiça do Trabalho, da previdência social, do sindicalismo reconhecido pelo Estado e de políticas voltadas ao desenvolvimento econômico passou a integrar de forma permanente a estrutura institucional brasileira, independentemente das mudanças de governo ocorridas ao longo da segunda metade do século XX.[61][74]
A Constituição brasileira de 1988 incorporou diversos princípios historicamente associados ao trabalhismo, como a ampliação dos direitos sociais, a proteção ao trabalho, a valorização da dignidade da pessoa humana e a responsabilidade do Estado na promoção do desenvolvimento e da redução das desigualdades sociais. Embora esses princípios também tenham sido influenciados por outras tradições políticas, a historiografia reconhece a importância da experiência trabalhista na consolidação da cidadania social brasileira.[79][50]
No plano partidário, o legado trabalhista permaneceu objeto de disputas após a redemocratização. O Partido Democrático Trabalhista (PDT) reivindicou explicitamente a continuidade da tradição política iniciada durante a Era Vargas, enquanto o novo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e outras legendas também passaram a utilizar referências ao trabalhismo em diferentes momentos de sua trajetória política.[78]
A historiografia contemporânea interpreta o trabalhismo como uma das principais tradições da política brasileira do século XX. Estudos de autores como Angela de Castro Gomes, Jorge Ferreira, José Murilo de Carvalho e Maria Celina D'Araújo destacam sua contribuição para a construção da cidadania social, para a institucionalização das relações de trabalho e para a consolidação do Estado nacional, ao mesmo tempo em que analisam criticamente seus limites, especialmente no que se refere ao corporativismo sindical e à centralização da mediação estatal dos conflitos sociais.[80][50][81][49]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 Gomes 2005, pp. 15–22.
- ↑ Perini Neto 2012, pp. 25–37.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Gomes 2005, pp. 97–118.
- 1 2 3 4 5 6 7 Fausto 2013, pp. 331–339.
- ↑ Ferreira 2005, pp. 15–31.
- 1 2 Gomes 2005, pp. 23–36.
- 1 2 3 4 Ferreira 2005, pp. 17–29.
- 1 2 3 Fausto 2013, pp. 245–266.
- ↑ Rodríguez 2000, pp. 15–28.
- ↑ Hentschke 2016, pp. 52–70.
- ↑ Hentschke 2016, pp. 70–83.
- ↑ Torres 1938, pp. 5–32.
- ↑ Vianna 1939, pp. 17–42.
- ↑ Lamounier 1977, pp. 343–346.
- 1 2 Brandão 2007, pp. 85–118.
- ↑ Vianna 1939, pp. 75–118.
- ↑ Rodríguez 2000, p. 19.
- ↑ Lamounier 1977, pp. 343–351.
- ↑ Santos 1978, pp. 91–112.
- ↑ Fausto 2013, pp. 185–208.
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- ↑ Fausto 2013, pp. 208–220.
- ↑ Carone 1975, pp. 95–132.
- ↑ Fausto 2013, pp. 267–289.
- ↑ Carone 1975, pp. 133–158.
- 1 2 3 Gomes 2005, pp. 119–152.
- ↑ Ferreira 2005, pp. 29–46.
- ↑ D'Araújo 1992, pp. 41–67.
- 1 2 Gomes 2005, pp. 189–213.
- 1 2 3 Ferreira 2005, pp. 47–69.
- 1 2 3 4 Fausto 2013, pp. 339–351.
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Bibliografia
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Leituras complementares
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